Apesar de ter sido escrita em 2017, esta peça não podia ser mais actual. O que começa como uma simples história de amor, depressa se revela um drama sobre intolerância e o peso da memória do Holocausto, bem como sobre a identidade de cada um de nós. O conflito judeu-árabe ganha uma dimensão pessoal/familiar, mas não menos violenta. Acho que nunca vamos perceber o porquê de tanto ódio entre estes dois povos.
Achei o palco do Teatro São Luís demasiado grande para uma peça que, na minha opinião, devia ser mais intimista. Mas o encenador Álvaro Correia consegue ultrapassar isso, aproveitando o espaço com simplicidade. O assunto pesado é tratado com respeito, com um ou outro apreciado apontamento de humor, num crescendo de emoções que nos levam à revelação de um segredo que vai mudar tudo. E não, o importante não é o romance entre os dois jovens, mas sim as consequências deste. No entanto, confesso que achei a peça demasiado longa (duas horas e meia é muito tempo) e após a revelação perdi um pouco o interesse. Achei um pouco pedagógica toda a sequência de transformação de Wahida, apesar de perceber a necessidade de o ser. Mas creio que o facto de a peça ser longa, não é culpa do encenador nem do excelente elenco, mas sim do seu autor.
Um tema actual visto de uma forma mais pessoal e que nos faz pensar nas razões de mais uma guerra estúpida, onde todos perdem. No fim, fiquei a saber que existem pássaros anfíbios.
Elenco: Cucha Carvalheiro, David Esteves, Fernando Luís, Madalena Almeida, Manuela Couto, Virgílio Castelo e Duarte Romão e Laura Garnel (alunos finalistas da ESTC)
Equipa Criativa: Encenação: Álvaro Correia • Texto: Wajdi Mouawad • Tradução: João Paulo Esteves da Silva • Espaço Cénico: André Guedes • Música e Espaço Sonoro: Vitória • Figurinos: Neusa Trovoada • Desenho de Luz: Manuel Abrantes • Apoio ao Espaço Cénico: Carlos Bártolo • Pintura e Caracterização Mural: Rita Rosa Pico e Tomás Richter • Assistente de Encenação: Bruno Soares Nogueira • Produção Executiva: Nuno Pratas • Coprodução: Culturproject, São Luiz Teatro Municipal e Teatro Municipal Joaquim Benite
Fotos: Leonardo Negrão






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