domingo, 22 de março de 2026

TODOS PÁSSAROS de Wajdi Mouawad

Eitan, um judeu-alemão, e Wahida, uma árabe-americana, apaixonam-se, provocando uma crise com a família de Eitan, que se recusa a aceitar esta relação. A fim de saber mais sobre a sua família, o jovem casal vai até Jerusalém, onde são apanhados num ataque terrorista. Com Eitan no hospital, a família reúne-se e um segredo antigo vem assombrar o presente.

Apesar de ter sido escrita em 2017, esta peça não podia ser mais actual. O que começa como uma simples história de amor, depressa se revela um drama sobre intolerância e o peso da memória do Holocausto, bem como sobre a identidade de cada um de nós. O conflito judeu-árabe ganha uma dimensão pessoal/familiar, mas não menos violenta. Acho que nunca vamos perceber o porquê de tanto ódio entre estes dois povos.

Achei o palco do Teatro São Luís demasiado grande para uma peça que, na minha opinião, devia ser mais intimista. Mas o encenador Álvaro Correia consegue ultrapassar isso, aproveitando o espaço com simplicidade. O assunto pesado é tratado com respeito, com um ou outro apreciado apontamento de humor, num crescendo de emoções que nos levam à revelação de um segredo que vai mudar tudo. E não, o importante não é o romance entre os dois jovens, mas sim as consequências deste. No entanto, confesso que achei a peça demasiado longa (duas horas e meia é muito tempo) e após a revelação perdi um pouco o interesse. Achei um pouco pedagógica toda a sequência de transformação de Wahida, apesar de perceber a necessidade de o ser. Mas creio que o facto de a peça ser longa, não é culpa do encenador nem do excelente elenco, mas sim do seu autor.

No elenco, destacaram-se, para mim, Manuela Couto como a mãe de Eitan e Cucha Carvalheiro como a avó; a primeira como uma mulher que tenta desesperadamente manter a sua família, a segunda como uma mulher supostamente fria que deseja abrir o seu coração; ambas têm receio do futuro. Como o casal romântico, David Esteves e Madalena Almeida vão bem individualmente, mas não senti paixão entre eles. Fernando Luís e Virgílio Castelo vão muito bem, o primeiro como o execrável pai de Eitan e o segundo como o quase patético avô. Por fim, uma última palavra para Duarte Romão e Laura Garnel, que marcam uma presença forte em papéis secundários.

Um tema actual visto de uma forma mais pessoal e que nos faz pensar nas razões de mais uma guerra estúpida, onde todos perdem. No fim, fiquei a saber que existem pássaros anfíbios. 

Elenco: Cucha Carvalheiro, David Esteves, Fernando Luís, Madalena Almeida, Manuela Couto, Virgílio Castelo e Duarte Romão e Laura Garnel (alunos finalistas da ESTC) 

Equipa Criativa: Encenação: Álvaro Correia • Texto: Wajdi Mouawad • Tradução: João Paulo Esteves da Silva • Espaço Cénico: André Guedes • Música e Espaço Sonoro: Vitória • Figurinos: Neusa Trovoada • Desenho de Luz: Manuel Abrantes • Apoio ao Espaço Cénico: Carlos Bártolo • Pintura e Caracterização Mural: Rita Rosa Pico e Tomás Richter • Assistente de Encenação: Bruno Soares Nogueira • Produção Executiva: Nuno Pratas • Coprodução: Culturproject, São Luiz Teatro Municipal e Teatro Municipal Joaquim Benite 

Fotos: Leonardo Negrão




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