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sexta-feira, 17 de julho de 2026

13 – O MUSICAL de Dan Elish & Robert Horn

Este musical teve a sua estreia na Nova Iorque em 2008 e é o único musical da Broadway em que todo o elenco (e orquestra também) é constituído apenas por teenagers. Apesar de não ter sido um grande sucesso, teve uma adaptação cinematográfica em 2022 via Netflix. Não vi o filme, nem nenhuma das produções teatrais deste 13, assim fui completamente à descoberta e gostei mais do que ia à espera.

Evan é um rapaz judeu cujos pais se divorciam e ele é obrigado a mudar-se com a sua mãe de Nova Iorque para Indiana. O seu grande problema é que vai fazer 13 anos e o seu “bar mitzvah” tem de ser um sucesso. Na nova morada, torna-se amigo de Patrice e de Archie, mas estes não fazem parte dos “cools” da escola, liderados por Brett e, sem este, ele não consegue ter convidados na sua festa.

Lembram-se de quando tinham 13 anos? As hormonas começam a fazer das suas, as paixonetas acontecem, o sexo torna-se um assunto de interesse... como questionam na peça, “o que vem a seguir à língua?”. É este espírito jovem que, nas mãos da encenadora Inês de Castro, enche um palco, praticamente vazio, com boa disposição e muito ritmo. Os dramas juvenis desenvolvem-se com inocência e graça. Para mim, o grande momento da noite é o número “Ela É Tão Má” (não sei se é este o título da canção), que é interpretado com muita graça por um trio de jovens actores que estão a adorar fazê-lo.

No papel principal, Philip de Campos convence como o jovem desesperado por ser aceite pelos “cools”. Como os seus únicos amigos, Madalena Pereira é a simpática Patrice e Mafalda Pereira o divertido Archie. Steven Graça é o convencido “chefe dos cools”, Francisca Cruz, a meio-tonta Kendra e Marta Soares, a intriguista e manipuladora Lucy. Mas tenho que confessar uma coisa, sempre que o Daniel Luz (como Malcom) estava em palco a minha atenção focava-se nele; muito divertido e com uma energia invejável. Mas sob a direcção de Inês de Castro, todo o elenco dá o seu melhor, com muita emoção e um ar de felicidade constante.

Infelizmente, quando eu tinha 13 anos, não havia escolas de teatro musical em Lisboa, mas fico feliz por saber que hoje existem e que estes miúdos aproveitam isso ao máximo.

Elenco: Philip de Campos, Madalena Pereira, Filipa de Castro, Mafalda Pereira, Steven Graça, Marta Soares, Maria Pinheiro, Francisca Cruz, Daniel Luz, Gabriel Alves,  Madalena Ferreira, Maria Andrade e Ava Barbosa

Equipa Criativa: Encenação, Direcção Musical, Direcção de Actores e Sonoplastia: Inês de Castro • Texto Original: Dan Elish & Robert Horn • Música e Letras: Jason Robert Brown • Som: Artur Marques • Luzes: Sofia Ramos • Projecções: Sofia de Castro • Produção: Primeiro Acto




terça-feira, 14 de julho de 2026

AMÉLIE – O MUSICAL de Craig Lucas

Em Dezembro de 2001, estreou nos nossos cinemas o filme O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE, que não só foi um grande sucesso de bilheteira, bem como um filme que marcou muitas pessoas e se tornou num título de culto. Claro que alguém achou que a sua história se prestava a ser um musical de palco, que chegou à Broadway em 2017 e a Londres em 2021. Nenhuma das produções teve grande sucesso, mas o fenómeno AMÉLIE nunca perdeu a sua magia e agora chega até nós pelas mãos experientes da Stagedoor, que este ano já nos deu o emocional CALENDAR GIRLS e o divertido MAUS HÁBITOS.

Para quem não se lembra, aqui fica uma breve sinopse. Amélie é uma tímida empregada de mesa que vive no seu mundo imaginário. Um dia, no seu apartamento, encontra uma velha lata cheia das memórias de alguém. Decide encontrar a pessoa a quem pertence a lata, bem como tentar ajudar as pessoas a serem felizes. Entretanto, o seu caminho cruza-se com o de um jovem e pode ser que ela encontre também a felicidade.

Assim que a gravação do elenco da Broadway foi editada, fui logo ouvir a mesma e confesso que fiquei decepcionado, esperava melhores canções. O mesmo aconteceu com a gravação do elenco londrino e presumi que o problema do musical era a sua partitura. Agora que vi o AMÉLIE no palco, diria que a música muito parisiense está em sintonia com a história, mas sim, falta-lhe canções que fiquem no ouvido. Mas isso em nada afectou o espectáculo harmonioso a que tive o prazer de assistir ontem à noite.

Existe uma atmosfera de encantamento nesta produção, encenada por João Duarte Costa, que se encaixa perfeitamente no espírito da história de Amélie. Tem uma espécie de aura mágica que se estende do palco até nós, espectadores. Talvez sejam as cores que envolvem os personagens, talvez seja a iluminação, a inocência "naive" dos cenários, o humor quase ingénuo... bem, acho que é o todo! Sente-se também a forma com que os personagens são acarinhados pelo encenador.

O musical não é só sobre Amélie, mas é ela a força motora do mesmo, e está bem entregue nas mãos de Cláudia Rosa que, com um ar de pura parisiense, nos conquista o coração com simpatia e seu jeito meio estranho. João Diniz é o tímido e meio desajeitado Nino, o alvo da sua atenção, e ninguém tem dúvidas que eles foram feitos um para o outro. Mateus Whytton Borges desdobra-se (muito bem) em vários papéis, nomeadamente como o ausente pai de Amélie e como o solitário pintor vizinho de Amélie. Samanta Sousa (a dona do café), Beatriz Sousa, (a apaixonada viúva), Alice Arrifano (uma espécie de divertida “new age”) e Sara Venâncio (a hospedeira) dão vida e cor ao pequeno grupo que rodeia Amélie, do qual também faz parte Vicente Neves como o desinspirado escritor. Destaque ainda para Pietro Pizzo, que nos dá um “glittering” Elton John e um meio louco canalizador, e para um inocente Tomás Mourato e seus adorados frutos. Mas todo o elenco vai muito bem, movimentando-se por vezes num todo e entregando-se com alma à coreografia de Marta Almeida.

Uma produção em estado de graça, que nos enche o coração de amor e esperança... algures por aí, a felicidade espera por nós!

Mais uma vez, os meus parabéns à Stagedoor e que continuem a manter vivo o Teatro Musical por muitos e muitos anos. Obrigado!

Elenco: Cláudia Rosa, João Diniz, Mateus Whytton Borges, Ana Isabel Gomes, Samanta Sousa, Beatriz Sousa, Alice Arrifano, Sara Venâncio, Vicente Neves, Pietro Pizzo, Tomás Mourato, Maria Bártolo, Sofia Belém, Vera Freire, Teresa Costa, Beatriz Vasconcelos, Mafalda Correia, Carolina Almeida, Madalena Oliveira, Madalena Braga, Mariana Gonçalves, Catarina Dias, Sofia Chaves, Inês Moura, Larissa Angeli, Kaya Barros, Bruna Camarinha, Soraia Torres, Gessika Cunha, Maria Gama 

Banda: Carlos Meireles, João Norte, Francisco Neves, Sérgio Fuiza Duarte

Equipa Criativa: Encenação: João Duarte Costa • Texto Original: Craig Lucas • Música: Daniel Messé • Letra: Daniel Messé & Nathan Tysen • Tradução e Adaptação: Raquel Pereira, Maria Mascarenhas, João Duarte Costa e Ana Stilwell • Assistente de Produção: Raquel Pereira • Direção Musical: Carlos Meireles • Coreografia: Marta Almeida • Cenografia: Maria Mascarenhas, Leonor Bivar, Nuno Baptista, João Duarte Costa e Lara Rocha • Adereços: Lara Rocha, Maria Mascarenhas, Inês Garcia e João Duarte Costa • Figurinos: João Duarte Costa, Lara Rocha e Inês Garcia • Direcção de Cena: Lara Rocha • Assistência de Cena: Inês Garcia • Contra-regras: Lara Rocha & Inês Garcia • Som: Eduardo Mota & João Branco • Luz: Paulo Santos e José Caratão • Direcção Artística: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical, João Pães Prata Lda • Assistente de Produção: Lara Rocha e Inês Garcia • Poster e Grafismo: Lara Rocha

Fotos: Luís Chaves


segunda-feira, 6 de julho de 2026

CARRIE – O MUSICAL de Lawrence D. Cohen

A produção original da Broadway estreou em 1988 e foi um fracasso tão grande que depressa se transformou num musical de culto. Antes e depois de CARRIE houve muitos e piores fracassos, mas este ficou na história ao ponto de ter servido de título ao livro NOT SINCE CARRIE – 40 YEARS OF BROADWAY MUSICAL FLOPS de Ken Mandelbaum, cuja leitura é obrigatória para qualquer amante de Teatro Musical.

A adaptação cinematográfica da novela CARRIE, de Stephen King, tinha sido um sucesso e não é de estranhar que alguém achasse que podia dar um bom musical de teatro. O argumentista do filme, Lawrence D. Cohen, adaptou a história ao palco; as canções eram da autoria da dupla Michael Gore & Dean Pitchford, que tinham tido um grande sucesso com as suas canções para o filme FAME; para a coreografia, escolheram Debbie Allen, estrela do FAME e, num momento inspirado de “casting”, a actriz Betty Buckley, que fazia da professora no filme, era agora a mãe fanática de Carrie. Apesar disto tudo, os críticos não gostaram, o público não comprou bilhetes e o musical fechou as suas portas ao fim de 21 representações.

Sendo apaixonado por musicais, bem como um fâ do filme de Brian De Palma, que vi numa sessão da meia-noite há muitos anos, tive sempre uma grande curiosidade em relação a este musical e, graças à escola Primeiro Acto, pude finalmente realizar esse meu sonho. 

Ao contrário do filme, a acção do musical existe dentro da mente traumatizada de Sue, que é obrigada a contar várias vezes os acontecimentos que levaram à tragédia no “prom” (baile de finalistas).

Carrie é uma adolescente tímida e inocente, que vive subjugada pela sua religiosamente fanática mãe e que é alvo de gozo pelas suas colegas. No dia em que lhe aparece pela primeira vez a menstruação, algo muda dentro dela e acaba por descobrir que tem um poder especial, telecinesia (“capacidade de mover ou manipular objetos e sistemas físicos usando apenas a mente, sem contacto físico ou interação mecânica”). Uma das suas colegas, Sue, arrepende-se de ter gozado com ela e convence o seu namorado a convidar a Carrie para o “prom”, não prevendo as consequências de tal acto.

Quando entrei na sala de teatro e comecei a ouvir a fantástica banda sonora do filme, da autoria de Pino Donaggio, percebi logo que estava nas mãos de alguém que tinha respeito pelo filme. O lado sobrenatural da história é, por razões práticas, mais contido aqui, mas eficaz na sua simplicidade e, no clímax, pela entrega física do elenco. Não esperem grandes números musicais, pois a dança não é um componente forte nesta produção (acredito que no fracasso original, Debbie Allen deve ter posto o elenco a mexer-se bem). À encenadora Sofia de Castro, interessa-lhe mais o lado humano da história, tornando este musical numa experiência por vezes intimista e, sem dúvida, mais realista que o filme. Julgo que um dos problemas deste musical são as canções, pois com excepção do belíssimo “Um Inocente Amor” ("Unsuspecting Hearts"), cantado por Miss Gardner (a professora de ginástica) e por Carrie, o resto não é muito interessante; já tinha percebido isso quando ouvi a gravação do elenco da produção Off-Broadway de 2012.

Não é fácil alguém conseguir fazer esquecer Sissy Spacek no papel, mas Rafaela Ribeiro depressa conquista a nossa simpatia como a inocente e carente Carrie, transformando-se diante dos nossos olhos na “princesa” feliz e corajosa que vai ao “prom”. Tudo isto, enquanto nos presenteia como uma voz forte e bonita. No papel da mãe, Sofia de Castro não é a personagem “over-acting” que Piper Laurie nos dava no filme, mas sim uma mulher desiludida com a vida, que se entregou a Deus e que quer proteger a sua filha dos males do mundo; a sua voz operática é perfeita para o personagem e ela está fantástica.

Tive pena que Bruna L. Rocha, como Miss Gardner, não cantasse mais, mas canta a melhor canção de todas e convence na sua empatia por Carrie. Pessoalmente, achei que Carolina Ferreira como Sue e Tomás Esteves como o seu namorado, apesar de talentosos, eram demasiado doces nos seus papéis. Por outro lado, Inês de Castro é uma verdadeira cabra como Chris, arrogante, egoísta e incapaz de sentir empatia seja por quem for; quando está em palco é difícil desviarmos o olhar dela. A seu lado, Tiago Ferreira é o perfeito “bronco”. O restante elenco entrega-se com energia aos seus papéis.

Para terminar este longo comentário, só mais uma coisinha. Só recentemente descobri o fascinante mundo dos musicais produzidos pelas escolas de teatro musical de Lisboa e tem sido uma agradável surpresa. Os meus parabéns a todas e, neste caso, principalmente à Primeiro Acto.

Elenco: Rafaela Ribeiro, Sofia de Castro, Carolina Ferreira, Tomás Esteves, Inês de Castro, Tiago Ferreira, Bruna L. Rocha, Gonçalo Elias, Bekas Duarte, Madalena Menezes, Mafalda Baptista, Gil Raposo, Rafael Costa, Rodrigo Brito, Carolina Torrinha, Diogo Orlindo, Mafalda Mateus, Mariana Soares, Ava Miguel, Matilde Pichstein, Siddártha Barbosa, Simão Pedro, Pedro Pichstein, Andreia Soares, Clara Compõete, Pedro Santos, Joana Bento, Tiago Vicente, Luísa Pereira




quarta-feira, 17 de junho de 2026

MAUS HÁBITOS de Dan Goggin

A comédia musical NUNSENSE, escrita por e com canções de Dan Goggin, teve a sua estreia Off-Broadway em 1985 onde esteve em exibição durante 10 anos. Viria a dar lugar a seis sequelas e a três “spin-offs”. Agora chegou às mãos competentes da Stagedoor (uma escola de teatro musical) como espectáculo de final de ano da sua Turma Iniciada do Curso Aberto.

A história é mais ou menos simples. Um acidente culinário provoca a morte de 52 freiras da ordem do Calvário e Outros Males; a fim de conseguirem pagar os funerais das Irmãs, as sobreviventes (estavam num jogo de bingo) fazem um “crowd funding”, mas a Madre Superiora acha que o dinheiro também chega para um Smart TV e, como resultado, quatro freiras ficam por enterrar. Então, para angariarem dinheiro para o funeral dessas Irmãs, decidem montar um pequeno espectáculo musical.

Há algo de irresistível em vermos freiras a cantar e a dançar. Provavelmente a culpa é da Maria Von Trapp da MÚSICA NO CORAÇÃO, mas é sempre engraçado e então se elas forem malandrecas, melhor ainda. As onze Irmãs deste musical são tudo isso: malandrecas, divertidas e cantam e dançam (até sapateiam) com alegria. Nós, os espectadores, somos convidados a abençoar o seu show com os nossos aplausos e gargalhadas.

Acredito que André Barroca Sobral se divertiu a encenar este alegre musical e que a coreógrafa Margarida Campos deve ter-se deliciado em pôr as Irmãs a dançar. Quanto ao elenco, diria que todas dão o seu melhor, com destaque para Inês Raposo como a Madre Superiora, que tem uma cena muito divertida com um “frasquinho mágico”, para Mariana Barata Gil como a Irmã Humberta que lidera as Irmãs num bem-disposto número de sapateado e, no final, num contagioso “godspell” e para Marta Dalfonso como a Irmã Ana Roberta, a mais vivida das Irmãs. Mas, tenho que confessar, a minha preferida é Íris Mendão como a deliciosa Irmã Amnésia.

Infelizmente, este espectáculo celestial só teve duas exibições e temo que não ressuscite, mas se o fizer façam-lhe uma visita e vão ver que MAUS HÁBITOS, Deus me perdoe, são sempre bem-vindos. 

Elenco: Inês Raposo, Marta Dalfonso, Mariana Barata Gil, Íris Mendão, Margarida Barbeira, Diva Pereira, Maria Inês Paz, Hagit Marom, Catarina Simões, Marta Canha e Sá, Luisa Vaz

Equipa Criativa: Encenação: André Barroca Sobral • Texto Original e Canções: Dan Googin • Adaptação: André Barrosa Sobral e Ana Stilwell • Coreografia: Margarida Campos • Direção Musical: Zita Milene • Apoio Coreográfico: Catarina Alves e Sara Venâncio • Direção técnica: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical

Fotos: Telma Meira






































quinta-feira, 4 de junho de 2026

CALENDAR GIRLS – O MUSICAL de Tim Firth

Há mais de 20 anos, estreou nos nossos cinemas o filme MENINAS DE CALENDÁRIO com Helen Mirren e Julie Walters à frente do elenco. Anos mais tarde, em 2015, foi adaptado ao teatro como um musical e teve a sua estreia em Londres em 2017. Agora esse musical chega até nós numa adaptação portuguesa nas mãos competentes da Stagedoor (uma escola de teatro musical em Lisboa).

Baseado numa história verídica, fala-nos de um grupo de mulheres que, contra tudo e todos, decidem posar nuas para um calendário, cujas vendas revertem para a compra de um sofá. Eu explico, o marido de uma delas (Annie) morre com um cancro e ela apercebeu-se de quão desconfortável era a sala de espera do hospital onde aguardava pelo seu marido; assim, em honra dele, decidem avançar com este projecto de caridade.

Eu sou um mero espectador que gosta de teatro, principalmente de teatro Musical. Pessoalmente não distingo entre teatro profissional e teatro amador, mas sim entre teatro bom e teatro menos bom. Tudo isto para dizer que esta produção que faz parte do currículo escolar da Stagedoor, pode ser considerada como teatro amador, mas de amador não tem nada e é muito boa. Só lamento que a sua carreira tenha sido limitada a quatro sessões.

Tal como já havia acontecido com outra produção da produção da Stagedoor, (AS BRUXAS DE EASTWICK), André Lourenço (desta vez com a ajuda de Raquel Pereira) continua a demonstrar ser um encenador de talento, despretensioso e com o coração no sítio certo. Demonstrando um grande carinho pelos actores e seus personagens, dão-nos aqui uma comédia dramática muito emocional, evitando, com humor, cair na lamechice a que o tema se propicia. Os meios à sua disposição não são muitos, mas com talento, imaginação e boa vontade tudo se consegue e esta produção é prova disso.

Não diria que as canções, da autoria de Gary Barlow (do grupo Take That) e Tim Firth são inesquecíveis, mas servem muito bem a história e soam bem ao ouvido, defendidas com alma pelo elenco.

O elenco de ilustres desconhecidos do grande público vive os personagens com autenticidade e emoção. Atrevo-me a dizer que aquele grupo de amigas no palco, o são na vida real, tal é a cumplicidade e empatia entre elas. Por razões óbvias, o destaque vai para Maria Mascarenhas como Annie (a viúva) e Mariana Granate como Chris (a sua melhor amiga); ambas se entregam com alma aos seus papéis, levando-nos com elas na sua luta pelo que acham que é correcto. Não posso deixar de destacar Maria João Granate como a engraçada e atrevidota mais “crescida” do grupo. As outras “meninas” são Ana Stilwell como a “sex bomb”, Joana Lencart como a mais púdica do grupo e Quica Granate como a mãe solteira de um teenager. E claro que tinha que haver uma “má da fita”, interpretada muito bem por Ana Granate.

Como Clarkey (o marido que falece), Samuel Cardita tem uma presença simpática e forte que, apesar de não ter muito tempo de palco, se faz sentir durante toda a peça. Na parte masculina, destaque também para Nuno Baptista como o compreensivo marido de Chris. Por fim uma palavra para o simpático trio de jovens que representam de forma credível os adolescentes da história – Mateus Whytton Borges, Cláudia Rosa e Tomás Mourato.

Duvido que alguém do público não tenha sido directa ou indirectamente confrontado com um caso de cancro, essa maldita doença cada vez mais na moda, bem como com a perda de alguém querido (isto pode parecer ridículo, mas no meu caso foi um gato que eu adorava). Talvez por isso é impossível ficar indiferente à história destas mulheres. Emoção é aqui a palavra do dia e é sem vergonha que nos envolvemos emocionalmente com o que se passa no palco e deixamos as lágrimas afluírem aos nossos olhos. Teatro é isto mesmo, emoção e uma sensação final de “feel good”. Parabéns a todos e mal posso esperar para ver as próximas produções: MAUS HÁBITOS e AMÉLIE. 

Elenco: Mariana Granate, Maria Mascarenhas, Quica Granate, Maria João Granate, Ana Stilwell, Joana Lencart, Ana Granate, Samuel Cardita, Nuno Baptista, Tiago Marques, Pepe Feu, Cátia Pimpista, Inês Vieira Mendes, Renata Belo, Miguel Pina, Mateus Whytton Borges, Tomás Mourato, Cláudia Rosa

Equipa Criativa: Música: Gary Barlow • Texto e Letras: Tim Firth • Tradução e Adaptação: Ana Stillwell, André Lourenço, Maria Mascarenhas e Raquel Pereira • Encenação: André Lourenço e Raquel Pereira • Direção Vocal: André Lourenço • Coreografia/Movimento: Sofia Loureiro • Cenografia: Nádia Gama e Maria Mascarenhas • Confeção de Adereços e Cenografia: Leonor Bivar, Maria Mascarenhas, Nuno Baptista e Lara Rocha • Direção de Cena: Lara Rocha • Técnico de Som: Eduardo Mota • Técnico de Luz: Sofia Costa • Desenho de Luz: Paulo Santos • Desenho de Som: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical, João Paes Prata,Lda

Fotos: Telma Meira








terça-feira, 14 de abril de 2026

“SR. ENGENHEIRO” – ALEGADAMENTE UM MUSICAL de Henrique Dias

Alegadamente inspirado em facto verídicos, este musical conta-nos a história da ascensão e queda de um político português que veio das beiras e conseguiu chegar a Primeiro-Ministro.

A provar que o teatro musical está de boa saúde e a crescer em Portugal, temos aqui algo novo. Um musical original da autoria de Henrique Dias e Artur Guimarães (responsável também pela versão musical portuguesa da ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS), que, com graça, ritmo e melodia, nos conta uma história conhecida de todos nós. Sente-se no ar a cumplicidade entre os factos contados no palco e o público, resultando num ambiente muito divertido onde, sem ofensa, nos rimos de tristes (alegadamente) verdades. 

A encenação de Rui Melo (AVENIDA Q, QUERIDO EVAN HANSEN) inspira-se na tradição do music-hall clássico, mas com um toque de modernidade que lhe assenta muito bem. Os números musicais sucedem-se com sucesso, a história desenrola-se sem pontos mortos, as gargalhadas não são forçadas e é uma pena que tudo isto dure menos de 90 minutos. A coreografia de Joana Duran ajuda à festa com simplicidade e graça.

Fiquei com a sensação de que o elenco se diverte tanto quanto nós e o seu entusiasmo pelo material é palpável. No papel do tal político, Manuel Marques é hilariante e tem aqui um papel à sua altura. Destaque também para Sílvia Filipe (ESTAR EM CASA), excelente como a apaixonada secretária a precisar de uma berlaitada, Alexandre Carvalho (A FAMÍLIA ADDAMS) como o pobre “entregador” de pizzas, Miguel Raposo como o advogado que percebe de prescrições jurídicas e Sissi Martins como a ministra à beira de um ataque de nervos. Mas todos eles estão muito bem e formam um grupo intocável que merece o nosso aplauso final de pé.

Se gostam de musicais, comédias e procuram algo de original, recomendo uma visita a este Sr. Engenheiro!

Elenco: Alexandre Carvalho, Brienne Keller, Jorge Mourato, Manuel Marques, Marta Andrino, Miguel Raposo, Samuel Alves, Sílvia Filipe, Sissi Martins e Rita Cruz

Músicos: Artur Guimarães, Tom Neiva, André Galvão, João Valpaços, Marcelo Cantarinhas, inês Nunes ou Carlos Domingues

Equipa Criativa: Encenação: Rui Melo • Texto: Henrique Dias • Assistência de Encenação: Madalena Almeida • Assistência de Encenação: Madalena Almeida • Música Original e Direcção Musical: Artur Guimarães • Direcção Vocal / Assistência Direcção Musical: Carlos Meireles • Cenografia e Figurinos: Marta Carreiras  • Confeção de Adereços e Assistência de Cenografia: Ana Sofia Gonçalves  • Confeção de Figurinos: Aldina Semedo  •  Coreografia: Joana Quelhas • Assistência de Coreografia: Joana Duran • Desenho de Luz: Paulo Sabino • Desenho de Som: Sérgio Milhano • Produção: UAU

Fotos: Pedro Sadio, Reinaldo Rodrigues, Daniel Rocha



terça-feira, 7 de abril de 2026

SWEENEY TODD – O CRUEL BARBEIRO DA RUA FLEET de Hugh Wheeler & Stephen Sondheim

Em 1997, pela mão de João Lourenço, estreou no Teatro D. Maria uma versão portuguesa deste musical, considerado por muitos como a obra-prima de Stephen Sondheim, que tive o prazer de ver e que era muito boa. Em 2007, João Lourenço volta a esse musical com uma nova produção, mas achei esta inferior à de 1997. Agora, 29 anos depois, este musical regressa aos nossos palcos numa produção da Lisbon Film Orchestra e é sempre um enorme prazer ouvir esta partitura ao vivo.

Em passos largos, é a história de um barbeiro (Sweeney) que é condenado por um crime que não cometeu, para que dessa forma um Juiz impiedoso possa ficar com a sua esposa, que enlouquece ao ser violada por este. De regresso a Londres, Sweeney procura vingança e encontra Mrs. Lovett, uma cozinheira de empadas que sempre teve um fraquinho por ele. Decidido a matar o Juiz, Sweeney decide ir assassinando outros homens até ter o Juiz nas suas mãos; sendo uma mulher prática, Mrs. Lovett sugere que usem a carne dos corpos para as suas empadas.

Ao contrário da produção de João Lourenço, o encenador Pedro Pernas (que dá, e muito bem, vida ao odioso e nojento Juiz) optou por tornar a coisa mais leve e jovem, puxando pelo lado cómico do musical e o resultado é, no meu ver, muito divertido. A meio caminho entre uma versão de concerto e uma versão teatral, Pernas aproveita bem o espaço do palco e o cenário é simples e funcional. No dia em que vi, houve umas ligeiras falhas de som e de iluminação, mas que em nada prejudicaram o gozo que me deu assistir a este musical deliciosamente negro. Também gostei da coreografia desconjuntada de Laura Póvoa, com movimentos que por vezes me faziam lembrar zombies, e que ajuda a criar o ambiente de loucura que envolve os personagens.

Num papel duplo, Ana Marta Kaufman diverte-se como Pirelli e é uma presença constante e incomodativa como a mendiga. Como o braço direito do Juíz, João Guimarães tem um olhar de sacanice que assenta que nem uma luva ao personagem. Pedro Tobias facilmente conquista a nossa simpatia como Tobias e canta com emoção a mais bonita balada do musical, “Not While I’m Around”. João Marques (o terrível SCROOOGE)  e Beatriz Cadete são o inocente, ingénuo, apaixonado e meio tonto casal romântico e estão muito bem. Vi recentemente Bryan Carvalho como o apaixonado e maniento Danny em GREASE e nunca pensei que ele tivesse o perfil necessário para fazer de Sweeney, pelo que foi uma verdadeira surpresa. Ameaçador, louco e com um vozeirão, não duvidamos das suas intenções e o seu “Epiphany” manda a “casa abaixo”. Por fim temos a inesquecível Mrs. Lovett, à qual Vânia Blubird (a hilariante hospedeira do recente COMPANY) se entrega de alma, coração e corpo, sendo impossível desviar o olhar dela sempre que está em palco. Completamente maluca, cabe a ela os momentos mais altos da noite, seja com o gostoso “The Worst Pies in London” ou com o atrevido “By the Sea”. Claro que, na companhia de Carvalho, nos dá o inesquecível “A Little Priest”, uma canção capaz de abrir o apetite a qualquer um de nós. Por fim, uma palavra para a excelente “ensemble”, por vezes fantasmagórica, outras vezes muito presente.

Caso ainda não tenham percebido, gostei mesmo muito deste SWEENEY TODD. Claro que sou suspeito, pois Sondheim é um dos meus compositores preferidos, mas recomendo uma visita a Fleet Street. E aproveitem para fazer a barba... ou talvez não. Imperdível!

PS: Lamento, mas não sei o título das canções em português.

Elenco: Bryan Carvalho, Vânia Blubird, João Marques, Beatriz Cadete, Pedro Alma, Pedro Pernas, Joâo Guimarães, Ana Marta Kaufmann, Andreia Soares, Carolina Ribeiro, Henrique Barata, Inês de Castro, Ivo Cota, José Sande, Maria Inês Cabral, Matheus Oliveira, Miguel Pina, Raquel Carvalho, Ricardo Mota, Sara Ângelo

Equipa Criativa: Texto Original: Hugh Wheeler • Música e Letras: Stephen Sondheim • Encenação: Pedro Pernas • Revisão do Guião: Teresa Mendes, Pedro Bello, Vânia Blubird • Direcção Musical: Nuno Sá • Coreografia: Laura Póvoa • Cenografia / Técnico de Palco: Kim Cachopo • Construção Cenário: Kim Cachopo e Trás Eventos • Apoio à Cenografia: Beatriz Greco • Guarda-Roupa / Figurinos: Ana Paula Rocha • Assist. Guarda-Roupa / Figurinos: Madalena Cáceres • Caracterização / Cabelos: Danila Hatzakis • Desenho de Luz: Laura Póvoa e Tiago Santos • Operação de Luz: Laura Póvoa • Técnico de Som: Quim Tó • Produção Executiva: Francisco Santiago e Pedro Bello • Assist. de Produção: David Garcez • Assist. de Encenação / Direcção de Cena:  Mari Ribeiro • Produção: Lisbon Film Orchestra

Fotos: Ben do Rosário, Paulo Miranda, Reinaldo Rodrigues