quarta-feira, 23 de setembro de 2026

COME FROM AWAY de Irene Sankoff & David Hein

Este musical teve a sua estreia na Broadway em 2017, onde teve uma carreira de sucesso que só terminou em 2022. 

Baseado em acontecimentos reais, que ocorreram logo a seguir aos ataques de 11 de Setembro de 2001, quando 38 aviões, com cerca de 7000 passageiros, foram obrigados a desviar a sua rota para o aeroporto da pequena cidade de Gander, em Terra Nova (Canadá), onde aterraram. Aí, a vida de um grupo de passageiros cruza-se com a vida dos habitantes da cidade, com resultados que mudaram as suas vidas para sempre. 

A produção portuguesa deste musical estreou na altura certa, no mês de Setembro, e é excelente. O encenador Pedro Pernas (o mesmo do recente SWEENEY TODD) consegue integrar-nos na vida dos personagens, ao ponto de fazermos parte daquele grupo. Talvez por isso sentimos as suas ansiedades, as suas emoções, os seus receios, os seus dramas... existe uma energia emotiva em palco que nos contagia e que não deixa ninguém indiferente. É impressionante como Pedro Pernas, com a ajuda de Laura Póvoa (responsável pela coreografia e movimentação), consegue criar ordem e harmonia no caos de malas, cadeiras e caixas que enchem o palco. Pernas também consegue evitar de forma hábil a lamechice a que o tema se proporciona.

As canções de autoria de Irene Sankoff e David Hein encaixam perfeitamente na história e, apesar de nenhuma ser do género de ficar no ouvido, enriquecem esta inesquecível experiência teatral. Eu vi a produção original da Broadway em video e, acreditem ou não, a produção portuguesa é muito melhor!

O elenco constituído por uma dúzia de talentosos e versáteis actores, desdobra-se por vários papéis e conquistam-nos em todos eles. Claro que, por motivos das personagens interpretadas, há sempre um ou outro que se destaca, aqui diria que é Teresa Macedo, como uma das professoras de Gander e, principalmente, como a piloto. Mas são todos mesmo muito bons. Adorei reencontrar Paulo Oom, André Lourenço e Pedro Paz, um trio que tive o prazer de ver na PEQUENA LOJA DOS HORRORES; bem como João Marques que, para além de ter sido o SCROOOGE, fazia parte do elenco de SWEENEY TODD e, claro, Marta Lys que vi no RENT. Quanto aos que eu desconhecia: Helena Montez, Catarina Leão, Madalena Pepolino, Ricardo Monteiro, Paulo Duarte Ribeiro e Mari Ribeiro, foram uma agradável surpresa. E os músicos são óptimos!

Este é um musical que devia ser visto por todos, pois recorda-nos como é bom sermos humanos e estarmos ali para os outros, qualidades que andam esquecidas neste mundo louco em que vivemos. Apesar do tema pesado e de nos deixar com um nó na garganta, é também um muito emotivo “feel-good” musical que nos deixa o coração cheio de esperança. Não percam! Vale mesmo a pena! 

Parabéns a todos, ficaram no meu coração!

Elenco: André Lourenço, Catarina Leão, Helena Montez, João Marques, Madalena Pepolino, Mari Ribeiro, Marta Lys, Paulo Duarte Ribeiro, Paulo Oom, Pedro Paz, Ricardo Monteiro, Teresa Macedo

Músicos: Malú Garcia, Tomás Rosa Duarte, Nuno Sá, Romeu Santos, Renato Andrade, Marco Fernandes,  Santiago Cunha, Marco Barbosa, Marta Mata, Catarina Passos, Gonçalo Reis

Equipa Criativa: Texto Original, Música e Letras: Irene Sankoff e David Hein • Encenação: Pedro Pernas • Direção Musical: Nuno Sá • Coreografia e Movimentação: Laura Póvoa • Cenografia e Figurinos: Ana Paula Rocha • Assistentes de Cenografia e Figurinos: Madalena Cáceres & Marta Andrade • Caracterização: Lis Areia • Direção de Cena: Madalena Venâncio • Desenho de Luz: Paulo Santos • Som: André Marques e Flávio Oliveira • Caracterização (tranças): Celine Nhime • Produção: Margarida Carlos & Pedro Bello – Lisbon Film Orchestra

Fotos: Paulo Miranda


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

ROSALINE, A EX DO ROMEU de Renato Arroyo

Uma das mais conhecidas e mais trágicas histórias de amor de sempre é o ROMEU E JULIETA de William Shakespeare. Mas na verdade, recentemente, descobriu-se que o tio Shakespeare não nos contou tudo. Então não é que o Romeu, antes de conhecer a Julieta, tinha um caso amoroso com a Rosaline? Quando esta última sobe que o Romeu estava apaixonado pela sua prima Julieta (conheceram-se num baile de máscaras), fica furiosa e decide fazer tudo para terminar aquele namoro. Pelo meio conhece o belo Luca, um pretendente à sua mão escolhido pelo seu pai. 

Baseado no romance “When You Were Mine” de Rebecca Serle, publicado em 2013 e transformado em filme em 2022, com o título “Rosaline”, é agora adaptado livremente ao teatro musical por Renato Arroyo e o resultado é divertido, com muita cor, luz e ritmo. Confesso que não é propriamente o meu estilo de musical, pois o seu estilo de música pop-rock não é para mim (verdade, sou um cota conservador), mas ainda assim tem coisas muito boas, especialmente o fantástico elenco. Achei o primeiro acto um bocado barulhento e confuso, mas as coisas melhoram bastante no segundo acto e a cena da morte do Romeu e Julieta é o grande momento do musical.

Voltando à música, escrita por Miguel Amorim e Filipe de Albuquerque, achei-a toda muito igual e, para mim, não houve nenhuma canção que se destacasse. Mas como já disse, o estilo pop-rock não é para mim. Quanto à coreografia, é naturalmente no estilo hip-hop, com uma ou outra excepção (com um quase momento Bob Fosse no bar), mas o elenco dança com energia e talento. 

Um pequeno aparte para os responsáveis pelo som. Por vezes a música estava tão alta, que não se conseguia perceber o que os actores estavam a cantar (por exemplo no dueto entre Rosaline e Julieta). Isto é um problema que se está, infelizmente, a tornar comum. Não se esqueçam que num musical as letras das canções são tão ou mais importantes que o texto e é importante percebê-las. 

No papel de Rosaline, Rafaela Monteiro (que já tinha tido o privilégio de ver em COMPANY e RENT) enche o palco com a sua forte presença, humor e grande voz. A seu lado, Inês Branco dá-nos uma radiosa e inocente Julieta e Vânia Blubird (fantástica em SWEENEY TODD e COMPANY) é excelente e divertida como a Ama. Do lado masculino, quem me conquistou foi o Bruno Madeira (que vi em COMPANY e VARIEDADES... COMO UMA ÓPERA BUFA...) como o simpático e sexy Luca; a química entre ele e Rosaline é palpável. Como Romeu, Emanuel Almeida é simpático, um pouco tonto e, como é óbvio, tem mais química com a Julieta do que com a Rosaline; no papel de Páris, o colorido gay amigo de Rosalina, Paulo Sousa é muito divertido. Tive pena que, em papéis secundários, Bryan Carvalho (SWEENEY TODD, GREASE), Pedro Nuno (IN THE HEIGHTS) e Samuel Alves (AVENIDA Q, O REGRESSO DE RICARDO III NO COMBOIO DAS 9h24, QUIZ, SR. ENGENHEIRO – ALEGADAMENTE UM MUSICAL) não tenham tido mais oportunidade de brilhar. Mas foi um prazer ver todo o jovem e talentoso elenco no palco.

É um musical cujo público-alvo não são os cotas como eu, mas sim os jovens de espírito e acredito que estes vão gostar muito mais do que eu. Por isso, comprem os vossos bilhetes e vão conhecer a Rosaline!

Elenco: Rafaela Monteiro, Inês Branco, Vânia Blubird, Emanuel Almeida, Paulo Sousa, Bruno Madeira, Samuel Alves, Artur Costa, Debbie Monteiro, Mimi Martinho, Pedro Nuno, Marco Ferreira, Bryan Carvalho, Gonçalo Rosales, Andreia Barros, Leonor Reis

Equipa Criativa: Criação, Texto, Cenografia & Encenação: Renato Arroyo • Co-criação & Letras: Inês Branco • Co-criação & Supervisão Artística: João Albuquerque Alves • Composição, Direção Musical & Produção Musical: Miguel Amorim • Letras, Composição & Assistência de Encenação: Filipe de Albuquerque • Direção Vocal & Arranjos Vocais: Carlos Meireles • Coreografia: Mimi Mourato & António Máximo • Desenho de Iluminação: Alexandre Almeida • Desenho de Som: Daniel Nicolau Fernandes • Desenho de Figurinos & Adereços: Pedro Morim • Desenho de Cenografia & Adereços: Lara Faustino • Desenho de Caracterização: Daisy Marques • Produção: UAU – Produção de Espectáculos, Lda

Fotos: desconhecido



terça-feira, 8 de setembro de 2026

PRÉMIOS JORGE VAI AO TEATRO 2026

Uma vez que a temporada teatral 2025/2026 (Setembro 2025 a Agosto 2026) chegou ao seu termo, está na altura de distinguir os melhores em várias categorias. 

Este ano decidi abrir o leque e passei de 18 para 30 categorias, pois decidi que, ao contrário do que aconteceu o ano passado, o Musical deve ter os seus próprios prémios.

Nesta última temporada tive a sorte de ver 54 novos espectáculos (na temporada anterior vi apenas 29), uns excelentes outros fraquitos, mas ir ao teatro é sempre uma experiência fantástica que aconselho a todos.

Quem já me conhece, sabe que não sou uma pessoa muito cultural, sem paciência para “intelectualices” e que vê as peças (e os filmes também) pelo lado emocional e não pelo intelectual. Para mim o teatro, bem como o cinema (a minha outra grande paixão), é a melhor forma de evasão da realidade das nossas vidas e deste mundo estranho em que vivemos. O bichinho do teatro continua vivo dentro de mim, mas duvido muito que algum dia venha a ser actor.

Só uma pequena explicação. As peças elegíveis para os meus prémios, são apenas aquelas que tiveram estreia em Lisboa entre 01.09.2025 a 31.08.2026. Reposições como, por exemplo, RENT, DONA MARGARIDA e SWIMMING POOL PARTY, não são elegíveis.

Mas já chega de conversa, aqui ficam os meus PRÉMIOS JORGE VAI AO TEATRO 2026, que apenas reflectem a minha paixão pelo teatro. Para o ano, se tudo correr bem, pode ser que haja mais.

Para saberem os PRÉMIOS JORGE VAI AO TEATRO 2025 é só clicarem aqui.









OS ESPECTÁCULOS QUE VI NA TEMPORADA 2025/2026







sexta-feira, 17 de julho de 2026

13 – O MUSICAL de Dan Elish & Robert Horn

Este musical teve a sua estreia na Nova Iorque em 2008 e é o único musical da Broadway em que todo o elenco (e orquestra também) é constituído apenas por teenagers. Apesar de não ter sido um grande sucesso, teve uma adaptação cinematográfica em 2022 via Netflix. Não vi o filme, nem nenhuma das produções teatrais deste 13, assim fui completamente à descoberta e gostei mais do que ia à espera.

Evan é um rapaz judeu cujos pais se divorciam e ele é obrigado a mudar-se com a sua mãe de Nova Iorque para Indiana. O seu grande problema é que vai fazer 13 anos e o seu “bar mitzvah” tem de ser um sucesso. Na nova morada, torna-se amigo de Patrice e de Archie, mas estes não fazem parte dos “cools” da escola, liderados por Brett e, sem este, ele não consegue ter convidados na sua festa.

Lembram-se de quando tinham 13 anos? As hormonas começam a fazer das suas, as paixonetas acontecem, o sexo torna-se um assunto de interesse... como questionam na peça, “o que vem a seguir à língua?”. É este espírito jovem que, nas mãos da encenadora Inês de Castro, enche um palco, praticamente vazio, com boa disposição e muito ritmo. Os dramas juvenis desenvolvem-se com inocência e graça. Para mim, o grande momento da noite é o número “Ela É Tão Má” (não sei se é este o título da canção), que é interpretado com muita graça por um trio de jovens actores que estão a adorar fazê-lo.

No papel principal, Philip de Campos convence como o jovem desesperado por ser aceite pelos “cools”. Como os seus únicos amigos, Madalena Pereira é a simpática Patrice e Mafalda Pereira o divertido Archie. Steven Graça é o convencido “chefe dos cools”, Francisca Cruz, a meio-tonta Kendra e Marta Soares, a intriguista e manipuladora Lucy. Mas tenho que confessar uma coisa, sempre que o Daniel Luz (como Malcom) estava em palco a minha atenção focava-se nele; muito divertido e com uma energia invejável. Mas sob a direcção de Inês de Castro, todo o elenco dá o seu melhor, com muita emoção e um ar de felicidade constante.

Infelizmente, quando eu tinha 13 anos, não havia escolas de teatro musical em Lisboa, mas fico feliz por saber que hoje existem e que estes miúdos aproveitam isso ao máximo.

Elenco: Philip de Campos, Madalena Pereira, Filipa de Castro, Mafalda Pereira, Steven Graça, Marta Soares, Maria Pinheiro, Francisca Cruz, Daniel Luz, Gabriel Alves,  Madalena Ferreira, Maria Andrade e Ava Barbosa

Equipa Criativa: Encenação, Direcção Musical, Direcção de Actores e Sonoplastia: Inês de Castro • Texto Original: Dan Elish & Robert Horn • Música e Letras: Jason Robert Brown • Som: Artur Marques • Luzes: Sofia Ramos • Projecções: Sofia de Castro • Produção: Primeiro Acto




terça-feira, 14 de julho de 2026

AMÉLIE – O MUSICAL de Craig Lucas

Em Dezembro de 2001, estreou nos nossos cinemas o filme O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE, que não só foi um grande sucesso de bilheteira, bem como um filme que marcou muitas pessoas e se tornou num título de culto. Claro que alguém achou que a sua história se prestava a ser um musical de palco, que chegou à Broadway em 2017 e a Londres em 2021. Nenhuma das produções teve grande sucesso, mas o fenómeno AMÉLIE nunca perdeu a sua magia e agora chega até nós pelas mãos experientes da Stagedoor, que este ano já nos deu o emocional CALENDAR GIRLS e o divertido MAUS HÁBITOS.

Para quem não se lembra, aqui fica uma breve sinopse. Amélie é uma tímida empregada de mesa que vive no seu mundo imaginário. Um dia, no seu apartamento, encontra uma velha lata cheia das memórias de alguém. Decide encontrar a pessoa a quem pertence a lata, bem como tentar ajudar as pessoas a serem felizes. Entretanto, o seu caminho cruza-se com o de um jovem e pode ser que ela encontre também a felicidade.

Assim que a gravação do elenco da Broadway foi editada, fui logo ouvir a mesma e confesso que fiquei decepcionado, esperava melhores canções. O mesmo aconteceu com a gravação do elenco londrino e presumi que o problema do musical era a sua partitura. Agora que vi o AMÉLIE no palco, diria que a música muito parisiense está em sintonia com a história, mas sim, falta-lhe canções que fiquem no ouvido. Mas isso em nada afectou o espectáculo harmonioso a que tive o prazer de assistir ontem à noite.

Existe uma atmosfera de encantamento nesta produção, encenada por João Duarte Costa, que se encaixa perfeitamente no espírito da história de Amélie. Tem uma espécie de aura mágica que se estende do palco até nós, espectadores. Talvez sejam as cores que envolvem os personagens, talvez seja a iluminação, a inocência "naive" dos cenários, o humor quase ingénuo... bem, acho que é o todo! Sente-se também a forma com que os personagens são acarinhados pelo encenador.

O musical não é só sobre Amélie, mas é ela a força motora do mesmo, e está bem entregue nas mãos de Cláudia Rosa que, com um ar de pura parisiense, nos conquista o coração com simpatia e seu jeito meio estranho. João Diniz é o tímido e meio desajeitado Nino, o alvo da sua atenção, e ninguém tem dúvidas que eles foram feitos um para o outro. Mateus Whytton Borges desdobra-se (muito bem) em vários papéis, nomeadamente como o ausente pai de Amélie e como o solitário pintor vizinho de Amélie. Samanta Sousa (a dona do café), Beatriz Sousa, (a apaixonada viúva), Alice Arrifano (uma espécie de divertida “new age”) e Sara Venâncio (a hospedeira) dão vida e cor ao pequeno grupo que rodeia Amélie, do qual também faz parte Vicente Neves como o desinspirado escritor. Destaque ainda para Pietro Pizzo, que nos dá um “glittering” Elton John e um meio louco canalizador, e para um inocente Tomás Mourato e seus adorados frutos. Mas todo o elenco vai muito bem, movimentando-se por vezes num todo e entregando-se com alma à coreografia de Marta Almeida.

Uma produção em estado de graça, que nos enche o coração de amor e esperança... algures por aí, a felicidade espera por nós!

Mais uma vez, os meus parabéns à Stagedoor e que continuem a manter vivo o Teatro Musical por muitos e muitos anos. Obrigado!

Elenco: Cláudia Rosa, João Diniz, Mateus Whytton Borges, Ana Isabel Gomes, Samanta Sousa, Beatriz Sousa, Alice Arrifano, Sara Venâncio, Vicente Neves, Pietro Pizzo, Tomás Mourato, Maria Bártolo, Sofia Belém, Vera Freire, Teresa Costa, Beatriz Vasconcelos, Mafalda Correia, Carolina Almeida, Madalena Oliveira, Madalena Braga, Mariana Gonçalves, Catarina Dias, Sofia Chaves, Inês Moura, Larissa Angeli, Kaya Barros, Bruna Camarinha, Soraia Torres, Gessika Cunha, Maria Gama 

Banda: Carlos Meireles, João Norte, Francisco Neves, Sérgio Fuiza Duarte

Equipa Criativa: Encenação: João Duarte Costa • Texto Original: Craig Lucas • Música: Daniel Messé • Letra: Daniel Messé & Nathan Tysen • Tradução e Adaptação: Raquel Pereira, Maria Mascarenhas, João Duarte Costa e Ana Stilwell • Assistente de Produção: Raquel Pereira • Direção Musical: Carlos Meireles • Coreografia: Marta Almeida • Cenografia: Maria Mascarenhas, Leonor Bivar, Nuno Baptista, João Duarte Costa e Lara Rocha • Adereços: Lara Rocha, Maria Mascarenhas, Inês Garcia e João Duarte Costa • Figurinos: João Duarte Costa, Lara Rocha e Inês Garcia • Direcção de Cena: Lara Rocha • Assistência de Cena: Inês Garcia • Contra-regras: Lara Rocha & Inês Garcia • Som: Eduardo Mota & João Branco • Luz: Paulo Santos e José Caratão • Direcção Artística: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical, João Pães Prata Lda • Assistente de Produção: Lara Rocha e Inês Garcia • Poster e Grafismo: Lara Rocha

Fotos: Luís Chaves


segunda-feira, 6 de julho de 2026

CARRIE – O MUSICAL de Lawrence D. Cohen

A produção original da Broadway estreou em 1988 e foi um fracasso tão grande que depressa se transformou num musical de culto. Antes e depois de CARRIE houve muitos e piores fracassos, mas este ficou na história ao ponto de ter servido de título ao livro NOT SINCE CARRIE – 40 YEARS OF BROADWAY MUSICAL FLOPS de Ken Mandelbaum, cuja leitura é obrigatória para qualquer amante de Teatro Musical.

A adaptação cinematográfica da novela CARRIE, de Stephen King, tinha sido um sucesso e não é de estranhar que alguém achasse que podia dar um bom musical de teatro. O argumentista do filme, Lawrence D. Cohen, adaptou a história ao palco; as canções eram da autoria da dupla Michael Gore & Dean Pitchford, que tinham tido um grande sucesso com as suas canções para o filme FAME; para a coreografia, escolheram Debbie Allen, estrela do FAME e, num momento inspirado de “casting”, a actriz Betty Buckley, que fazia da professora no filme, era agora a mãe fanática de Carrie. Apesar disto tudo, os críticos não gostaram, o público não comprou bilhetes e o musical fechou as suas portas ao fim de 21 representações.

Sendo apaixonado por musicais, bem como um fâ do filme de Brian De Palma, que vi numa sessão da meia-noite há muitos anos, tive sempre uma grande curiosidade em relação a este musical e, graças à escola Primeiro Acto, pude finalmente realizar esse meu sonho. 

Ao contrário do filme, a acção do musical existe dentro da mente traumatizada de Sue, que é obrigada a contar várias vezes os acontecimentos que levaram à tragédia no “prom” (baile de finalistas).

Carrie é uma adolescente tímida e inocente, que vive subjugada pela sua religiosamente fanática mãe e que é alvo de gozo pelas suas colegas. No dia em que lhe aparece pela primeira vez a menstruação, algo muda dentro dela e acaba por descobrir que tem um poder especial, telecinesia (“capacidade de mover ou manipular objetos e sistemas físicos usando apenas a mente, sem contacto físico ou interação mecânica”). Uma das suas colegas, Sue, arrepende-se de ter gozado com ela e convence o seu namorado a convidar a Carrie para o “prom”, não prevendo as consequências de tal acto.

Quando entrei na sala de teatro e comecei a ouvir a fantástica banda sonora do filme, da autoria de Pino Donaggio, percebi logo que estava nas mãos de alguém que tinha respeito pelo filme. O lado sobrenatural da história é, por razões práticas, mais contido aqui, mas eficaz na sua simplicidade e, no clímax, pela entrega física do elenco. Não esperem grandes números musicais, pois a dança não é um componente forte nesta produção (acredito que no fracasso original, Debbie Allen deve ter posto o elenco a mexer-se bem). À encenadora Sofia de Castro, interessa-lhe mais o lado humano da história, tornando este musical numa experiência por vezes intimista e, sem dúvida, mais realista que o filme. Julgo que um dos problemas deste musical são as canções, pois com excepção do belíssimo “Um Inocente Amor” ("Unsuspecting Hearts"), cantado por Miss Gardner (a professora de ginástica) e por Carrie, o resto não é muito interessante; já tinha percebido isso quando ouvi a gravação do elenco da produção Off-Broadway de 2012.

Não é fácil alguém conseguir fazer esquecer Sissy Spacek no papel, mas Rafaela Ribeiro depressa conquista a nossa simpatia como a inocente e carente Carrie, transformando-se diante dos nossos olhos na “princesa” feliz e corajosa que vai ao “prom”. Tudo isto, enquanto nos presenteia como uma voz forte e bonita. No papel da mãe, Sofia de Castro não é a personagem “over-acting” que Piper Laurie nos dava no filme, mas sim uma mulher desiludida com a vida, que se entregou a Deus e que quer proteger a sua filha dos males do mundo; a sua voz operática é perfeita para o personagem e ela está fantástica.

Tive pena que Bruna L. Rocha, como Miss Gardner, não cantasse mais, mas canta a melhor canção de todas e convence na sua empatia por Carrie. Pessoalmente, achei que Carolina Ferreira como Sue e Tomás Esteves como o seu namorado, apesar de talentosos, eram demasiado doces nos seus papéis. Por outro lado, Inês de Castro é uma verdadeira cabra como Chris, arrogante, egoísta e incapaz de sentir empatia seja por quem for; quando está em palco é difícil desviarmos o olhar dela. A seu lado, Tiago Ferreira é o perfeito “bronco”. O restante elenco entrega-se com energia aos seus papéis.

Para terminar este longo comentário, só mais uma coisinha. Só recentemente descobri o fascinante mundo dos musicais produzidos pelas escolas de teatro musical de Lisboa e tem sido uma agradável surpresa. Os meus parabéns a todas e, neste caso, principalmente à Primeiro Acto.

Elenco: Rafaela Ribeiro, Sofia de Castro, Carolina Ferreira, Tomás Esteves, Inês de Castro, Tiago Ferreira, Bruna L. Rocha, Gonçalo Elias, Bekas Duarte, Madalena Menezes, Mafalda Baptista, Gil Raposo, Rafael Costa, Rodrigo Brito, Carolina Torrinha, Diogo Orlindo, Mafalda Mateus, Mariana Soares, Ava Miguel, Matilde Pichstein, Siddártha Barbosa, Simão Pedro, Pedro Pichstein, Andreia Soares, Clara Compõete, Pedro Santos, Joana Bento, Tiago Vicente, Luísa Pereira