terça-feira, 7 de abril de 2026

SWEENEY TODD – O CRUEL BARBEIRO DA RUA FLEET de Hugh Wheeler & Stephen Sondheim

Em 1997, pela mão de João Lourenço, estreou no Teatro D. Maria uma versão portuguesa deste musical, considerado por muitos como a obra-prima de Stephen Sondheim, que tive o prazer de ver e que era muito boa. Em 2007, João Lourenço volta a esse musical com uma nova produção, mas achei esta inferior à de 1997. Agora, 29 anos depois, este musical regressa aos nossos palcos numa produção da Lisbon Film Orchestra e é sempre um enorme prazer ouvir esta partitura ao vivo.

Em passos largos, é a história de um barbeiro (Sweeney) que é condenado por um crime que não cometeu, para que dessa forma um Juiz impiedoso possa ficar com a sua esposa, que enlouquece ao ser violada por este. De regresso a Londres, Sweeney procura vingança e encontra Mrs. Lovett, uma cozinheira de empadas que sempre teve um fraquinho por ele. Decidido a matar o Juiz, Sweeney decide ir assassinando outros homens até ter o Juiz nas suas mãos; sendo uma mulher prática, Mrs. Lovett sugere que usem a carne dos corpos para as suas empadas.

Ao contrário da produção de João Lourenço, o encenador Pedro Pernas (que dá, e muito bem, vida ao odioso e nojento Juiz) optou por tornar a coisa mais leve e jovem, puxando pelo lado cómico do musical e o resultado é, no meu ver, muito divertido. A meio caminho entre uma versão de concerto e uma versão teatral, Pernas aproveita bem o espaço do palco e o cenário é simples e funcional. No dia em que vi, houve umas ligeiras falhas de som e de iluminação, mas que em nada prejudicaram o gozo que me deu assistir a este musical deliciosamente negro. Também gostei da coreografia desconjuntada de Laura Póvoa, com movimentos que por vezes me faziam lembrar zombies, e que ajuda a criar o ambiente de loucura que envolve os personagens.

Num papel duplo, Ana Marta Kaufman diverte-se como Pirelli e é uma presença constante e incomodativa como a mendiga. Como o braço direito do Juíz, João Guimarães tem um olhar de sacanice que assenta que nem uma luva ao personagem. Pedro Tobias facilmente conquista a nossa simpatia como Tobias e canta com emoção a mais bonita balada do musical, “Not While I’m Around”. João Marques (o terrível SCROOOGE)  e Beatriz Cadete são o inocente, ingénuo, apaixonado e meio tonto casal romântico e estão muito bem. Vi recentemente Bryan Carvalho como o apaixonado e maniento Danny em GREASE e nunca pensei que ele tivesse o perfil necessário para fazer de Sweeney, pelo que foi uma verdadeira surpresa. Ameaçador, louco e com um vozeirão, não duvidamos das suas intenções e o seu “Epiphany” manda a “casa abaixo”. Por fim temos a inesquecível Mrs. Lovett, à qual Vânia Blubird (a hilariante hospedeira do recente COMPANY) se entrega de alma, coração e corpo, sendo impossível desviar o olhar dela sempre que está em palco. Completamente maluca, cabe a ela os momentos mais altos da noite, seja com o gostoso “The Worst Pies in London” ou com o atrevido “By the Sea”. Claro que, na companhia de Carvalho, nos dá o inesquecível “A Little Priest”, uma canção capaz de abrir o apetite a qualquer um de nós. Por fim, uma palavra para a excelente “ensemble”, por vezes fantasmagórica, outras vezes muito presente.

Caso ainda não tenham percebido, gostei mesmo muito deste SWEENEY TODD. Claro que sou suspeito, pois Sondheim é um dos meus compositores preferidos, mas recomendo uma visita a Fleet Street. E aproveitem para fazer a barba... ou talvez não. Imperdível!

PS: Lamento, mas não sei o título das canções em português.

Elenco: Bryan Carvalho, Vânia Blubird, João Marques, Beatriz Cadete, Pedro Alma, Pedro Pernas, Joâo Guimarães, Ana Marta Kaufmann, Andreia Soares, Carolina Ribeiro, Henrique Barata, Inês de Castro, Ivo Cota, José Sande, Maria Inês Cabral, Matheus Oliveira, Miguel Pina, Raquel Carvalho, Ricardo Mota, Sara Ângelo

Equipa Criativa: Texto Original: Hugh Wheeler • Música e Letras: Stephen Sondheim • Encenação: Pedro Pernas • Revisão do Guião: Teresa Mendes, Pedro Bello, Vânia Blubird • Direcção Musical: Nuno Sá • Coreografia: Laura Póvoa • Cenografia / Técnico de Palco: Kim Cachopo • Construção Cenário: Kim Cachopo e Trás Eventos • Apoio à Cenografia: Beatriz Greco • Guarda-Roupa / Figurinos: Ana Paula Rocha • Assist. Guarda-Roupa / Figurinos: Madalena Cáceres • Caracterização / Cabelos: Danila Hatzakis • Desenho de Luz: Laura Póvoa e Tiago Santos • Operação de Luz: Laura Póvoa • Técnico de Som: Quim Tó • Produção Executiva: Francisco Santiago e Pedro Bello • Assist. de Produção: David Garcez • Assist. de Encenação / Direcção de Cena:  Mari Ribeiro • Produção: Lisbon Film Orchestra

Fotos: Ben do Rosário, Paulo Miranda, Reinaldo Rodrigues




domingo, 5 de abril de 2026

EVITA de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber

Antes de começar, duas coisas. Primeira: até agora, nunca tinha visto este famoso musical em palco, tendo visto a adaptação cinematográfica de 1996 com Madonna e até que gostei. Segunda: confesso que, com excepção do SUNSET BOULEVARD, não sou, nem nunca fui, grande fã do Andrew Lloyd Webber. Na verdade, são três coisas, a terceira é que acho que a sala do Capitólio não tem condições para este tipo de espectáculos. Lisboa está a precisar de uma nova sala de teatro preparada para musicais.

A história de EVITA é conhecida do grande público. Eva é uma jovem de origem humilde, mas cheia de ambição, que vai manipulando os seus homens e assim vai subindo na vida,  até ao dia em que conhece Juan Perón. Consegue conquistá-lo e, quando este sobe ao poder, torna-se a Primeira Dama da Argentina. Amada por uns e odiada por outros, conseguiu a fama e a fortuna que ambicionava.

Gostava muito de poder dizer que gostei desta produção, mas a verdade é que não gostei. Achei a encenação de Paulo Sousa Costa mecânica, sem alma, sem coração; a peça pede a paixão e a energia de Evita, mas não a senti, até achei que tinha alguns pontos mortos. O teatro musical não é fácil de encenar e obedece a uma fluidez muito própria que, quando falha, pode tornar o espectáculo arrastado e mesmo maçador. Assim, depois deste EVITA e do anterior GREASE, julgo que vou evitar novos musicais encenados por Paulo Sousa Costa (de quem gostei do trabalho que fez com A RATOEIRA). 

Também em termos de coreografia, da autoria de Mariana Luís e Pedro Borralho (os mesmos de GREASE), o resultado é fraco. Os membros do “ensemble” fazem o melhor que podem com a desinteressante coreografia e é uma pena que a energia “caliente” de, por exemplo, o tango, não esteja presente em palco. 

Como disse logo no princípio, não faço a mínima ideia de como era a produção original e se é essa que serviu de modelo a Paulo Sousa Costa, mas há sempre lugar para melhorias; o que funcionava em 1978 (ano da estreia de EVITA) pode ser datado nos tempos de hoje.

A razão principal que me levou a ir ver este EVITA foi saber que a personagem ia ser interpretada por Sofia Escobar... não quero ser mau, mas achei a sua voz demasiado operática para o papel e a sua Eva não me conquistou; falta-lhe garra e graciosidade. Para mim, o seu melhor momento é quando, já para o fim, se senta nas escadas e canta com Juan, interpretado por um sólido Diogo Carvalho. Não sabia que Diogo Morgado sabia cantar, mas vai bem e dá-nos um Che gozão e um pouco rufia. Mas de quem eu mais gostei foi de Ricardo Soler como Magaldi, é uma pena que ele não cante mais, e, principalmente, de Rebeca Reinaldo como a amante de Juan Perón. Cabe a ela o momento alto da noite e, a partir daí, só me interroguei porque não era ela a dar vida a Eva Perón. Uma última palavra para a talentosa “ensemble” que enche o palco e que nos tenta animar com a sua energia. Entre estes, destaca-se Diogo Pinto (o Corny Collins de HAIRSPRAY) com o seu sorriso aberto e a alegria com que dança.

Verdade, na noite em que assisti a este EVITA, praticamente todo o público aplaudiu de pé, pelo que provavelmente o defeito é meu. Não sou especialista em teatro, sou apenas um apaixonado pelo mesmo, principalmente pelo Musical, pelo que isto é apenas a minha opinião. Seja como for, apesar de não ter gostado, é importante que musicais como este vão sendo cada vez mais produzidos por cá e, recentemente, temos tido boas produções: IN THE HEIGHTSA FAMÍLIA ADDAMSHAIRSPRAYCOMPANYCHICAGOMÃESAVENIDA QQUERIDO EVAN HANSENTHE DROWSY CHAPERONEA PEQUENA LOJA DOS HORRORES e outras. Por isso, vão ao teatro; bom ou menos bom, é sempre uma experiência que recomendo.

Elenco: André Lourenço (Ensemble), Beatriz Lema (Ensemble), Diogo Morgado (Che), Diogo de Carvalho (Péron), Diogo Pinto (Ensemble), Eliseu Ferreira (Ensemble), Inês Martins (Ensemble), João Maria Reis (Ensemble), José Valente (Ensemble), Maria Almeida (Ensemble), Maria Braga (Ensemble), Mariana Marques Guedes (Ensemble), Miguel Barroso (Ensemble), Miguel Sousa (Ensemble), Rebeca Reinaldo (Amante), Ricardo Soler (Magaldi), Sílvia Mirpuri (Ensemble) e Sofia Escobar (Eva Péron) 

Equipa Criativa: Música: Andrew Lloyd Webber • Letra: Tim Rice • Encenação: Paulo Sousa Costa • Assistente de Encenação: João Vilas • Direção Musical: Carolina Puntel • Coreografia: Mariana Luís e Pedro Borralho • Assistente coreografia: Kkappa • Direção de Arte e Cenografia: Fred Klaus • Figurinos: Sofia Lima • Assistentes de Figurinos: Afonso Judicibus e Beatriz Ferreira • Perucas: Gena Ramos • Aderecista: Carolina Almeida • Eva Péron interpretada por Sofia Escobar vestida pelo criador Tony Miranda • Cartaz, Criativo e Voz Off: Pedro Matias Maria • Produção: Yellow Star Company

Fotos: Estelle Valente - EGEAC




domingo, 29 de março de 2026

IN THE HEIGHTS de Quiara Alegría Hudes e Lin-Manuel Miranda

Na comunidade latina de Washington Heights, Nova Iorque, o jovem Usnavi sonha em voltar para a República Dominicana na companhia da sua “abuela” Claudia, enquanto a jovem Nina regressa ao bairro com uma notícia que não vai agradar aos seus pais. Usnavi tem uma paixão pela sexy Vanessa, que está desejosa de sair daquele bairro, e Nina reencontra Benny, um empregado do seu pai, por quem nutre sentimentos amorosos. Temos ainda Sonny, primo de Usnavi, Daniela e Carla, as donas do salão de cabeleireiro, Pete, o pintor de graffiti, e um vendedor de “piragua”.

O musical IN THE HEIGHTS começou a sua carreira em Waterford Connecticut em 2005 e em 2007 estreou Off-Broadway. Em 2008, a produção foi transferida com sucesso para a Broadway, onde ganhou 4 Tonys (uma espécie de Óscars da Broadway), incluindo Melhor Musical e Melhor Partitura Original. Em 2021 foi adaptado ao cinema por Jon M. Chu (o realizador do WICKED). Vi o filme, mas nunca tive a possibilidade de ver a peça no palco, até agora. A espera valeu bem a pena!

Antes de mais, duas coisas. Primeira, detesto rap; segunda, a música latino-americana não é bem o meu estilo. Independentemente dos meus gostos musicais conservadores, a verdade é que gostei mesmo muito deste IN THE HEIGHTS e deixei-me levar pelos seus ritmos contagiantes. É uma pena não transformarem o teatro num salão de dança no fim do espectáculo.

Sissi Martins, responsável pela encenação de RENT, está de volta na “cadeira de chefe” e, na minha modesta opinião, aqui a sua encenação ainda é mais apurada. Todo o palco vibra com entusiasmo e ritmo, mas também com emoção e amor. A sua direção de actores não podia ser melhor e, por vezes o palco parece ser pequeno para conter tanto talento. A ajudar à festa, a coreografia de Marco Mercier convida à dança e o elenco aceita o convite de alma e coração.

Quanto ao elenco, são todos excelentes em todos os niveis e, por razões de importância dos seus papéis, uns acabam sempre por se destacar. Luísa Cruz conquista-nos facilmente com a sua “abuela” e Gonçalo Rosales convence como o tímido, sonhador e simpático Usnavi. No papel da sexy Vanessa, Margarida Martins (A PEQUENA LOJA DOS HORRORES, COMPANY) surpreendeu-me pela positiva e Marta Mota (RENT) é uma fonte de boas energias como Daniela. Kiko Monteiro é engraçado como Sonny e gostei de reencontrar Pessoa Junior (um dos RAPAZES NÚS A CANTAR que eu vi), aqui como o pai de Nina. Ludmilla Guimarães e Pedro Nuno vão muito bem como Nina e Benny, fazendo-nos acreditar no seu amor. Como Pete (o do grafiiti), Renato Nobre demonstra ser um excelente bailarino, Tiago Retrê diverte-se como o vendedor de piragua e Sara Claro (A PEQUENA LOJA DOS HORRORES, RENT) tem uma presença forte como a mãe de Nina. Os actores cujo nomes não mencionei, ajudam a encher o palco com energia e vida.

Recomendo uma visita e este bairro e desafio-vos a não se deixarem contagiar pela música, mas sei que não vão resistir! Graças à MTL e outros, o Teatro Musical está bem vivo em Portugal e isso faz-me muito feliz.

Elenco: Carolina Amarais, Catarina Clau (Carla), Gonçalo Rosales (Usnavi), Gustavo Ramos, Kiko Monteiro (Sonny), Luísa Cruz (Abuela Claudia), Ludmilla Guimarães (Nina), Margarida Silva (Vanessa), Marta Mota (Daniela), Mimi Mourato, Pedro Nuno (Benny), Pedro Razori, Pessoa Júnior (Kevin, pai de Nina), Renato Nobre (Pete), Sara Claro (Camila, mãe de Nina), Tiago Retrê (vendedor de piragua)

Músicos: Artur Mendes – Saxofone; Jackson Azarias – Baixo; João Gomes – Trombone; João Ventura – Bateria; Kent Queener – Piano; Micael Pereira - Trompete

Equipa Criativa: Texto Original: Quiara Alegría Hudes • Música e Letra: Lin-Manuel Miranda  • Encenação: Sissi Martins • Direção Artística: Martim Galamba, Rúben Madureira, Sissi Martins • Produção Executiva:  Martim Galamba • Direção Musical: Tom Neiva • Coreografia: Marco Mercier • Adaptação Portuguesa:  João Sá Coelho • Direção Vocal: Carlos Meireles • Cenografia e Figurinos: Pedro Morim • Desenho Som: Daniel Fernandes • Desenho Luz: Francisco Alves • Direção de Cena:  Sílvia Moura • Assistência de Produção: Bruno Águas • Consultoria Quiara: Alegría Hudes e Philip Himberg • Assistência Figurinos: Romana Mussagy • Pintura Mural: Magda Casqueiro • Produção: MTL - Music Theater Lisbon

Fotos: Estelle Valente - EGEAC 




terça-feira, 24 de março de 2026

T2 EM BENFICA POR 600 EUROS de Vicente Alves do Ó

Um T2 em Benfica por 600 euros? Uma verdadeira pechincha! E, assim sendo, cinco desconhecidos celebram individualmente um contrato de arrendamento do apartamento, para depois descobrirem que afinal não são o único arrendatário. Sentindo-se enganados, têm de arranjar uma solução entre todos.

Há um ditado que diz “a brincar a brincar foi o macaco ao cú à mãe”. Pois nesta peça, a brincar a brincar, falam-se de coisas muito sérias. A crise de habitação em Portugal, neste caso em Lisboa, e o desespero dos cidadãos para conseguirem encontrar um apartamento que possam pagar, é o tema desta comédia da autoria de Vicente Alves do Ó. O resultado é divertido, mas algumas gargalhadas são amargas. A história de cada um dos personagens não é feliz, cada um com os seus problemas e as suas razões para quererem o apartamento. Temos um sem abrigo, uma esposa em processo de separação, um “quarentinha” que nunca teve um apartamento só seu, uma “maluca” dos gatos com uma filha que não quer saber dela e um jovem propenso a desmaios espontâneos. Curiosamente, só um deles está disposto a desistir do apartamento a favor dos outros.

O cenário é “assombrado” por um berrante papel de parede anos 70, que me fez lembrar vulvas (mas tenho uma mente porca, não liguem) e que divide a opinião dos seus futuros arrendatários. Neste cenário único, os personagens dão-se a conhecer e cada um dá o seu toque pessoal ao apartamento. Não há falta de ritmo em palco, sempre com algo a acontecer e a despertar a nossa atenção. O desespero dos personagens é igual ao de tantos portugueses que, quando lhes aparece uma oportunidade única, não pensam duas vezes e caem no “conto do vigário”. Mas atenção, os vigaristas andam aí em busca de alvos fáceis. 

O elenco é irrepreensível! Todos vivem os seus personagens com humor, garra e o dramatismo necessário. Por vezes comoventes, outras vezes loucos, são um quinteto que merece o nosso aplauso. Por eles e pela actualidade do assunto, aconselho que façam uma visita a este T2 em Benfica. E sim, rir é sempre o melhor remédio!

Elenco: António Camelier, Margarida Antunes, Margarida Moreira, Francisco Beatriz e Ricardo Barbosa 

Equipa Criativa: Encenação: Vicente Alves do Ó • Texto: Vicente Alves do Ó • Operador de Som: Rúben Brandão • Guarda-Roupa: Ukbar Filmes • Produção: Meia Palavra Basta – Associação Cultural • Apoio à Produção: Junta de Freguesia de Benfica, Ukbar Filmes, HIT Management, Oficina de Museus, Auditório Carlos Paredes, Cine-Teatro Turim • Imagem Cartaz: Mariana Lokelani • Designer Gráfico: Joana Franco

Fotos: Ana Lopes Gomes



domingo, 22 de março de 2026

TODOS PÁSSAROS de Wajdi Mouawad

Eitan, um judeu-alemão, e Wahida, uma árabe-americana, apaixonam-se, provocando uma crise com a família de Eitan, que se recusa a aceitar esta relação. A fim de saber mais sobre a sua família, o jovem casal vai até Jerusalém, onde são apanhados num ataque terrorista. Com Eitan no hospital, a família reúne-se e um segredo antigo vem assombrar o presente.

Apesar de ter sido escrita em 2017, esta peça não podia ser mais actual. O que começa como uma simples história de amor, depressa se revela um drama sobre intolerância e o peso da memória do Holocausto, bem como sobre a identidade de cada um de nós. O conflito judeu-árabe ganha uma dimensão pessoal/familiar, mas não menos violenta. Acho que nunca vamos perceber o porquê de tanto ódio entre estes dois povos.

Achei o palco do Teatro São Luís demasiado grande para uma peça que, na minha opinião, devia ser mais intimista. Mas o encenador Álvaro Correia consegue ultrapassar isso, aproveitando o espaço com simplicidade. O assunto pesado é tratado com respeito, com um ou outro apreciado apontamento de humor, num crescendo de emoções que nos levam à revelação de um segredo que vai mudar tudo. E não, o importante não é o romance entre os dois jovens, mas sim as consequências deste. No entanto, confesso que achei a peça demasiado longa (duas horas e meia é muito tempo) e após a revelação perdi um pouco o interesse. Achei um pouco pedagógica toda a sequência de transformação de Wahida, apesar de perceber a necessidade de o ser. Mas creio que o facto de a peça ser longa, não é culpa do encenador nem do excelente elenco, mas sim do seu autor.

No elenco, destacaram-se, para mim, Manuela Couto como a mãe de Eitan e Cucha Carvalheiro como a avó; a primeira como uma mulher que tenta desesperadamente manter a sua família, a segunda como uma mulher supostamente fria que deseja abrir o seu coração; ambas têm receio do futuro. Como o casal romântico, David Esteves e Madalena Almeida vão bem individualmente, mas não senti paixão entre eles. Fernando Luís e Virgílio Castelo vão muito bem, o primeiro como o execrável pai de Eitan e o segundo como o quase patético avô. Por fim, uma última palavra para Duarte Romão e Laura Garnel, que marcam uma presença forte em papéis secundários.

Um tema actual visto de uma forma mais pessoal e que nos faz pensar nas razões de mais uma guerra estúpida, onde todos perdem. No fim, fiquei a saber que existem pássaros anfíbios. 

Elenco: Cucha Carvalheiro, David Esteves, Fernando Luís, Madalena Almeida, Manuela Couto, Virgílio Castelo e Duarte Romão e Laura Garnel (alunos finalistas da ESTC) 

Equipa Criativa: Encenação: Álvaro Correia • Texto: Wajdi Mouawad • Tradução: João Paulo Esteves da Silva • Espaço Cénico: André Guedes • Música e Espaço Sonoro: Vitória • Figurinos: Neusa Trovoada • Desenho de Luz: Manuel Abrantes • Apoio ao Espaço Cénico: Carlos Bártolo • Pintura e Caracterização Mural: Rita Rosa Pico e Tomás Richter • Assistente de Encenação: Bruno Soares Nogueira • Produção Executiva: Nuno Pratas • Coprodução: Culturproject, São Luiz Teatro Municipal e Teatro Municipal Joaquim Benite 

Fotos: Leonardo Negrão




quarta-feira, 18 de março de 2026

HAIRSPRAY de Mark O’Donnell e Thomas Meehan

Em 2003, numa visita a Nova Iorque, vi a produção original deste musical na Broadway e não fiquei convencido. Em 2007 estreou a adaptação cinematográfica, que vi e gostei. Agora foi a vez de o ver de novo no palco, nesta produção portuguesa e... sabem uma coisa? Adorei!

Tracy é uma teenager cujo maior sonho é dançar no show televisivo do Corny Collins. Quando abrem audições para o mesmo, ela concorre, mas como não obedece ao padrão físico da “cabra” Velma Von Tussel e sua insuportável filha, não é aceite. Com a ajuda de Seaweed, um jovem negro, consegue chamar a atenção do Corny Collins e entra no show. Mas Tracy quer ir mais longe e acha que é altura de brancos e negros dançarem em conjunto na televisão, ao mesmo tempo que se apaixona por Link Larkin, o ídolo de todas as adolescentes e namorado de Amber Von Tussle.

Confesso a minha ignorância, nunca tinha ouvido falado do Teatro ÀPriori, mas a partir de agora vou estar muito atento às suas produções que, se tiverem a qualidade deste HAIRSPRAY, espero venham a ser muitas.

Pois é, como já disse, adorei esta produção cheia de energia, cor, música e alegria de viver. É verdade, fui vê-la com alguma desconfiança. Com excepção de dois dos actores, os nomes da equipa não me diziam nada. Mas não havia razões para ter medo. João Prior encena com o coração no sítio certo e faz correr a produção de forma inspirada, bem oleada, com sentido de humor e uma boa direcção de actores. A coreografia de Leonardo Viana é simples, agradável à vista e verdadeiramente contagiante; uma pena não nos podermos juntar ao elenco no palco para dançar com eles.

Quanto ao elenco, temos uma companhia de gente talentosa, capaz de interpretar, cantar e dançar. Como já mencionei, apenas conhecia dois dos actores: Dennis Correia (o fabuloso Angel de RENT) que nos dá um Seaweed cheio de ritmo e graça e Maria Prata (que fazia parte do trio feminino da PEQUENA LOJA DOS HORRORES) que dá convincentemente vida à terrível Amber. No papel de Tracy, Emília Guimarães revela uma energia inesgotável e cria facilmente empatia connosco; como a sua mãe, Diogo Almeida é deliciosamente divertido, com um brilho atrevido no olhar. Inês Lima é muito cómica como a desajeitada Penny e Sofia de Castro vai muito bem como a manipuladora Velma. Como Link, Rui Serrinha é um perfeito ídolo das matinés e, como Corny, Diogo Pinto irradia charme. Amália Santana é uma maternal Motormouth, Rafael Pina o apaixonado e bem-disposto Wilbur, Naymara Cruz mexe-se bem como a Pequena Inês e Raquel Carvalho é divertida como a tresloucada Prudy, a mãe de Penny. Uma última palavra para Inês Maia, Soraia Morais e Ailèma Monteiro que são um verdadeiro “dinamite” como as Dynamites.

Infelizmente, por razões que desconheço, só conseguiram sala para quatro sessões esgotadas, pelo que espero que alguém ceda um lugar a esta fabulosa companhia e que HAIRPSRAY volte rapidamente aos nossos palcos. Esta explosão de cor e alegria é um verdadeiro antidoto para os tempos negros que se se vivem e uma muito desejada lufada de ar fresco. Vamos criar uma petição para que volte aos nossos palcos?

Elenco: Ailèma Monteiro, Alexandra Galhordas, Amália Santana, Beatriz Alves, Dennis Correia, Diogo Almeida, Diogo Pinto, Emília Guimarães, Fábio Teixeira, Guilherme Coutinho, Haba Barbosa, Inês Azevedo, Inês Lima, Inês Maia, Inês Nunes, Inês Reais, Inês Rocha, João Monteiro, Kelly Oliveira, Leonardo Viana, Margarida Esteves, Maria Prata, Matilde Lima, Naymara Cruz, Rafael Pina, Raquel Carvalho, Renata Arenga, Rui Serrinha, Simão Sousa, Sofia de Castro, Soraia Morais, Zé Francisco.

Equipa Criativa: Texto Original: Mark O’Donnell & Thomas Meehan  • Música:  Marc Shaiman • Letras: Scott Wittman & Marc Shaiman • Encenação e Produção Executiva: João Prior • Tradução: Inês Lima, João Prior e Marta Martins • Coreografia: Leonardo Viana • Direção Musical: Mari Ribeiro • Direção de Actores: Marta Martins • Consultoria: Marco Mendonça • Assistência Coreográfica: Inês Azevedo • Produção: Inês Lima, Inês Azevedo, João Monteiro, Marta Martins, Patrícia Rodrigues, Margarida Esteves • Fotografia e Design do Cartaz: Renato Arroyo • Social Media: Patrícia Rodrigues • Marketing: João Monteiro • Figurinos: Alexandra Galhordas, João Prior • Mestre de Costura: Preciosa Verdilheiro • Cabelos: Pedro Ribeiro • Desenho de Luz: Tiago Santos • Desenho de Som: Margarida Pinto • Design 3D: Pedro Felizardo • Fotografias e Vídeo: António Esteves • Produção: Teatro ÀPriori