quinta-feira, 4 de junho de 2026

CALENDAR GIRLS – O MUSICAL de Tim Firth

Há mais de 20 anos, estreou nos nossos cinemas o filme MENINAS DE CALENDÁRIO com Helen Mirren e Julie Walters à frente do elenco. Anos mais tarde, em 2015, foi adaptado ao teatro como um musical e teve a sua estreia em Londres em 2017. Agora esse musical chega até nós numa adaptação portuguesa nas mãos competentes da Stagedoor (uma escola de teatro musical em Lisboa).

Baseado numa história verídica, fala-nos de um grupo de mulheres que, contra tudo e todos, decidem posar nuas para um calendário, cujas vendas revertem para a compra de um sofá. Eu explico, o marido de uma delas (Annie) morre com um cancro e ela apercebeu-se de quão desconfortável era a sala de espera do hospital onde aguardava pelo seu marido; assim, em honra dele, decidem avançar com este projecto de caridade.

Eu sou um mero espectador que gosta de teatro, principalmente de teatro Musical. Pessoalmente não distingo entre teatro profissional e teatro amador, mas sim entre teatro bom e teatro menos bom. Tudo isto para dizer que esta produção que faz parte do currículo escolar da Stagedoor, pode ser considerada como teatro amador, mas de amador não tem nada e é muito boa. Só lamento que a sua carreira tenha sido limitada a quatro sessões.

Tal como já havia acontecido com outra produção da produção da Stagedoor, (AS BRUXAS DE EASTWICK), André Lourenço (desta vez com a ajuda de Raquel Pereira) continua a demonstrar ser um encenador de talento, despretensioso e com o coração no sítio certo. Demonstrando um grande carinho pelos actores e seus personagens, dão-nos aqui uma comédia dramática muito emocional, evitando, com humor, cair na lamechice a que o tema se propicia. Os meios à sua disposição não são muitos, mas com talento, imaginação e boa vontade tudo se consegue e esta produção é prova disso.

Não diria que as canções, da autoria de Gary Barlow (do grupo Take That) e Tim Firth são inesquecíveis, mas servem muito bem a história e soam bem ao ouvido, defendidas com alma pelo elenco.

O elenco de ilustres desconhecidos do grande público vive os personagens com autenticidade e emoção. Atrevo-me a dizer que aquele grupo de amigas no palco, o são na vida real, tal é a cumplicidade e empatia entre elas. Por razões óbvias, o destaque vai para Maria Mascarenhas como Annie (a viúva) e Mariana Granate como Chris (a sua melhor amiga); ambas se entregam com alma aos seus papéis, levando-nos com elas na sua luta pelo que acham que é correcto. Não posso deixar de destacar Maria João Granate como a engraçada e atrevidota mais “crescida” do grupo. As outras “meninas” são Ana Stilwell como a “sex bomb”, Joana Lencart como a mais púdica do grupo e Quica Granate como a mãe solteira de um teenager. E claro que tinha que haver uma “má da fita”, interpretada muito bem por Ana Granate.

Como Clarkey (o marido que falece), Samuel Cardita tem uma presença simpática e forte que, apesar de não ter muito tempo de palco, se faz sentir durante toda a peça. Na parte masculina, destaque também para Nuno Baptista como o compreensivo marido de Chris. Por fim uma palavra para o simpático trio de jovens que representam de forma credível os adolescentes da história – Mateus Whytton Borges, Cláudia Rosa e Tomás Mourato.

Duvido que alguém do público não tenha sido directa ou indirectamente confrontado com um caso de cancro, essa maldita doença cada vez mais na moda, bem como com a perda de alguém querido (isto pode parecer ridículo, mas no meu caso foi um gato que eu adorava). Talvez por isso é impossível ficar indiferente à história destas mulheres. Emoção é aqui a palavra do dia e é sem vergonha que nos envolvemos emocionalmente com o que se passa no palco e deixamos as lágrimas afluírem aos nossos olhos. Teatro é isto mesmo, emoção e uma sensação final de “feel good”. Parabéns a todos e mal posso esperar para ver as próximas produções: MAUS HÁBITOS e AMÉLIE. 

Elenco: Mariana Granate, Maria Mascarenhas, Quica Granate, Maria João Granate, Ana Stilwell, Joana Lencart, Ana Granate, Samuel Cardita, Nuno Baptista, Tiago Marques, Pepe Feu, Cátia Pimpista, Inês Vieira Mendes, Renata Belo, Miguel Pina, Mateus Whytton Borges, Tomás Mourato, Cláudia Rosa

Equipa Criativa: Música: Gary Barlow • Texto e Letras: Tim Firth • Tradução e Adaptação: Ana Stillwell, André Lourenço, Maria Mascarenhas e Raquel Pereira • Encenação: André Lourenço e Raquel Pereira • Direção Vocal: André Lourenço • Coreografia/Movimento: Sofia Loureiro • Cenografia: Nádia Gama e Maria Mascarenhas • Confeção de Adereços e Cenografia: Leonor Bivar, Maria Mascarenhas, Nuno Baptista e Lara Rocha • Direção de Cena: Lara Rocha • Técnico de Som: Eduardo Mota • Técnico de Luz: Sofia Costa • Desenho de Luz: Paulo Santos • Desenho de Som: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical, João Paes Prata,Lda

terça-feira, 26 de maio de 2026

CLUBE DOS POETAS MORTOS de Tom Schulman

Em Janeiro de 1990 chegou aos nossos cinemas o filme O CLUBE DOS POETAS MORTOS. Nele, um professor (interpretado por Robin Williams) regressa ao colégio interno onde foi aluno e tenta abrir a mente dos seus alunos através da poesia e da literatura, para que estes aprendam a sonhar e tenham coragem de ser eles próprios, algo que não agrada à classe dirigente da escola.

Confesso que na altura não fiquei apaixonado pelo filme, na realidade saí bem revoltado da sala. Acho que, uma vez que o actor era Robin Williams, ia à espera de uma comédia e fiquei decepcionado. Talvez por isso, para mim esta produção teatral é melhor que o filme. O facto de estar mais velho, também ajuda a ver a história por outra perspectiva. E o tema principal é tão relevante, ter coragem para sermos nós próprios e enfrentar os “velhos do Restelo”. Mas voltei a sentir a revolta dentro de mim, pois as classes opressoras continuam a procurar “bodes expiatórios” para tentarem limpar as suas consciências.

A encenação de Hélder Gamboa é sóbria, elegante e eficaz. Não há distracções em palco, apenas um grupo de personagens que capta a nossa atenção do princípio ao fim, criando empatia connosco e uma forte antipatia para com os “velhos do Restelo”. As cenas da gruta estão brilhantemente encenadas, com um cúmplice jogo de luzes de lanternas, que contrasta com a austeridade da sala de aulas.

Como fugir da sombra do sonhador, divertido e simpático Robin Williams? Acredito que esse foi o grande desafio de Diogo Infante ao interpretar o papel do professor; e ele fá-lo com o seu jeito habitual, com talento, seriedade e algum humor. Virgílio Castelo convence como o odioso director e Diogo Mesquita, num papel muito secundário, brilha como o autoritário pai de Neil.

Mas o espectáculo pertence por direito aos talentosos jovens que dão vida aos alunos. Vão todos muito bem, com normal destaque para alguns deles: Dany Duarte é o apaixonado Knox, Diogo Fernandes é divertido como o irreverente Charlie, João Maria Cardoso dá comicidade ao sonso e irritante Cameron, João Sá Nogueira foi para mim uma revelação como o introvertido Anderson. Uma última palavra para o extraordinário Rui Pedro Silva (BROKEBACK MOUNTAIN), que nos dá um Neil cheio de vida, de sonhos e também de medo. Todos eles, (Rafael Leitão, Jaime Pinto Gamboa e Nuno Represas completam o jovem elenco) demonstram que estamos perante uma belíssima nova geração de actores. Parabéns!

Por tudo isto aconselho uma visita a este CLUBE, pois não se vão arrepender. Mas ouvi dizer que as inscrições não são fáceis de conseguir.

Elenco: Dany Duarte, Diogo Infante, Diogo Fernandes, Diogo Mesquita, Jaime Pinto Gamboa, João Maria Cardoso, João Sá Nogueira, Nuno Represas, Rafael Leitão, Rui Pedro Silva e Virgílio Castelo

Equipa Criativa: Encenação: Hélder Gamboa • Texto: Tom Schulman • Cenografia: Fernando Ribeiro • Adereços: Luís Martins e Rafaela Almeida • Figurinos: Maria Gonzaga • Desenho de Luz: Nuno Meira • Sonoplastia: Luís Lucena • Cabelos: Rui Canento • Assistência de encenação:  Ângela Pinto e Pedro Maralma • Produção – Tenda Produções: Ana Delgado • Produção executiva – Tenda Produções: Miguel Manaças • Comunicação – Tenda Produções: Carlos Félix • Fotografia cartaz e spot TV: Pedro Macedo – Framed Photos • Coprodução: Teatro da Trindade INATEL e Tenda Produções

Fotos: Alípio Padilha



CORAÇÕES DE PAPEL de Harvey Fierstein

TORCH SONG TRILOGY (seu título original) resultou da junção de três peças escritas por Harvey Fierstein, apresentadas num só espectáculo de três actos. Teve a sua estreia Off-Broadway em 1981 e em 1982 foi transferida para os palcos da Broadway, onde se manteve em exibição cerca de três anos. Em 1988 foi adaptada ao cinema pelo próprio Fierstein, que, tal como nos palcos, interpretava o papel principal.

Para quem não saiba, é a história de Arnold, uma drag-queen, e divide-se em três momentos-chave da sua vida: a sua relação com um homem bissexual que o deixa por uma mulher; o luto por um homem mais novo com quem adoptou um filho; o confronto com a sua mãe conservadora, com dificuldade em aceitar a homossexualidade do seu filho.

Em Portugal o filme estreou em 1991 e foi quando eu o vi, tendo logo conquistado o meu coração. Talvez por isso, foi com algum receio que fui ver esta versão portuguesa, transformada em monólogo. Mas os meus receios foram infundados.

Nas mãos de Peter Pina, o texto original não perde nada da sua força, num misto de drama e comédia. Algumas gargalhadas são amargas, mas o humor é um aliado de Arnold e, por vezes, ajuda a aliviar a tensão do dramatismo da vida de um homem, que a única coisa que quer é amar e ser amado. Infelizmente, os temas retratados têm hoje tanta ou mais importância do que quando a peça estreou.

Voltando a Peter Pina, a sua encenação é simples, com cores fortes e uma certa religiosidade que lhe assenta bem. Quanto a Pina, a sua interpretação é uma “tour-de-force”, especialmente brilhante na sequência em que recorda uma conversa com a sua mãe. O palco é dele e ele enche-o com alma e coração, sendo uma pena que a peça não esteja mais tempo em exibição. Se voltar aos nossos palcos não percam!

Elenco: Peter Pina 

Equipa Criativa: Encenação: Peter Pina • Texto: Harvey Fierstein • Tradução e Adaptação: Peter Pina • Assistente de Encenação: Susana Oliveira • Design e Grafismo: Sanny • Produção: Peter Pina e Beatriz Nabais







terça-feira, 5 de maio de 2026

VERDADEIRO OESTE de Sam Shepard

Esta é a história de dois irmãos que não podiam ser mais diferentes. Austin é um argumentista à espera da sua grande oportunidade em Hollywood, Lee é uma espécie de fora-da-lei, de temperamento violento e dado a pequenos crimes. Durante uns dias, os dois vêem-se obrigados a partilhar a casa da mãe, enquanto esta vai de férias para o Alaska.

Apesar do título, isto não é uma peça de cowboys, mas sim um drama humorístico sobre a relação de dois irmãos, as suas diferenças, formas de estar e pensar, sempre com uma violência latente que pode explodir a cada momento. A encenação muito física de Rita Lello tira muito bom proveito do pequeno palco, criando um cenário (também da sua autoria) quase claustrofóbico que se vai deteriorando perante o nosso olhar atento. Confesso que a história não mexeu comigo, não tendo conseguido criar nenhuma ligação emocional com os personagens, mas provavelmente também não é suposto isso acontecer.

No papel dos manos, André Nunes e Martim Pedroso são excelentes. O primeiro, mais calmo, vai-se transformando e perdendo a sua passividade. O segundo, mais violento e manipulador, parece querer devorar o cenário e o irmão. Ambos funcionam muito bem, tanto em termos emocionais, como em termos físicos e, neste campo, não é uma peça fácil. A secundá-los,  temos Heitor Lourenço como um oportunista produtor de Hollywood e Valerie Braddell como a mãe que, como comentado por uma amiga minha, parece ser uma “extra-terrestre“ no meio dos filhos.

É uma peça forte, com um final violento e ambíguo, feita com humor, energia e com dois fantásticos actores no centro das atenções.

Elenco: André Nunes, Heitor Lourenço, Martim Pedroso e Valerie Braddell 

Equipa Criativa: Encenação e Tradução: Rita Lello • Texto Original: Sam Shepard • Cenografia: Rita Lello – Besta de Estilo: • Figurinos: João Telmo • Guarda Roupa: Besta de Estilo • Desenho de Luz: Ricardo Campos • Música Original e Sonoplastia: Carlos Morgado • Video: Rita Casaes • Caracterização: Noé • Fotografia Cartaz: Pedro Macedo – Framed Photos • Assistência de Encenação e Produção: Afonso Lourenço • Coprodução: Teatro da Trindade INATEL, Nova Companhia, Rita Lello e Ajagato

Fotos: Alípio Padilha




sábado, 25 de abril de 2026

ETERNIDADE ELECTRO de Pedro Sousa Loureiro aka Feathering

A equipa responsável pela AVÓ MAGNÉTICA está de volta aos nossos palcos. Desta vez, em vez de recordarem as suas avós, falam-nos dos seus amores de Verão, que por vezes se estendem pelas outras estações (ou talvez não).

Tal como na peça anterior, estamos perante uma explosão energética e imersiva, que transcende as encenações convencionais, convidando-nos à participação, mas sem forçar nada. A maluquice é muita, com música, dança, saltos e, penso eu, com muito improviso à mistura; o resultado é que saímos do teatro bem-dispostos e a sentirmo-nos muito “eléctricos”. 

Os quatro actores em cena, devem ter tomado um Red Bull antes de entrarem em palco. A sua energia é infinita e o seu humor facilmente nos conquista. Presente numa vídeo-entrevista do AVÓ MAGNÉTICA, Alex Azevedo tem agora uma simpática presença em palco. Margarida Cardeal e Pedro Sousa Loureiro aka Feathering são completamente loucos e eu adoro isso. Em quase estilo “diva” da Motown, Bárbara Wahnon foi, para mim, uma agradável surpresa e presenteia-nos com um dos momentos altos do espectáculo, a sua canção “Dialetos de Amor”, que julgo ser também de sua autoria.

Acredito que já todos tivemos amores de Verão, e, tenham estes ou não, é sempre bom recordar as coisas boas que eles nos proporcionaram. Ao assistir à peça, no meu caso, houve uma memória que me veio à mente. Devia ter para aí vinte e poucos anos, fui acampar sozinho para Peniche e o meu caminho cruzou-se com um moço estrangeiro de nome Mario. Com muita pena minha, não fizemos nada mais que trocar uns beijos e ele teve de partir no dia seguinte. Mas antes de se ir embora, ainda deixou um bilhete romântico na minha tenda, o qual reproduzo aqui:

“Love comes from the most unexpected places; from someone’s eyes you’ve never met, who wants to get to know you; from someone’s smile you can’t forget, that makes your heartbeat drumming like a train, that gives you warm feelings and an excited mood. 

Hope to see you, really do. 

Kiss from Mario”

Infelizmente naquele tempo não havia internet e nunca mais soube nada dele.

Voltando à peça, a sua boa disposição e espírito de liberdade merecem ser vividos pelo público e espero que a chamada comunidade queer lhe dê a atenção que merece.

Elenco: Alex Azevedo, Bárbara Wahnon, Margarida Cardeal, Pedro Sousa Loureiro aka Feathering, Thomas Attar 

Equipa Criativa: Criação, Produção e Realização: Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Texto: Miguel Stichini e Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Música Original: Thomas Attar • Participação em Video: Miguel Stichini • Fotografia: Alípio Padilha e Luísa Martins • Desenho de Luz: Miguel Cruz • Operação de Som: Érica Arce • Operação de Luz: Miguel Gregório

Fotografia: Alípio Padilha 

terça-feira, 14 de abril de 2026

“SR. ENGENHEIRO” – ALEGADAMENTE UM MUSICAL de Henrique Dias

Alegadamente inspirado em facto verídicos, este musical conta-nos a história da ascensão e queda de um político português que veio das beiras e conseguiu chegar a Primeiro-Ministro.

A provar que o teatro musical está de boa saúde e a crescer em Portugal, temos aqui algo novo. Um musical original da autoria de Henrique Dias e Artur Guimarães (responsável também pela versão musical portuguesa da ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS), que, com graça, ritmo e melodia, nos conta uma história conhecida de todos nós. Sente-se no ar a cumplicidade entre os factos contados no palco e o público, resultando num ambiente muito divertido onde, sem ofensa, nos rimos de tristes (alegadamente) verdades. 

A encenação de Rui Melo (AVENIDA Q, QUERIDO EVAN HANSEN) inspira-se na tradição do music-hall clássico, mas com um toque de modernidade que lhe assenta muito bem. Os números musicais sucedem-se com sucesso, a história desenrola-se sem pontos mortos, as gargalhadas não são forçadas e é uma pena que tudo isto dure menos de 90 minutos. A coreografia de Joana Duran ajuda à festa com simplicidade e graça.

Fiquei com a sensação de que o elenco se diverte tanto quanto nós e o seu entusiasmo pelo material é palpável. No papel do tal político, Manuel Marques é hilariante e tem aqui um papel à sua altura. Destaque também para Sílvia Filipe (ESTAR EM CASA), excelente como a apaixonada secretária a precisar de uma berlaitada, Alexandre Carvalho (A FAMÍLIA ADDAMS) como o pobre “entregador” de pizzas, Miguel Raposo como o advogado que percebe de prescrições jurídicas e Sissi Martins como a ministra à beira de um ataque de nervos. Mas todos eles estão muito bem e formam um grupo intocável que merece o nosso aplauso final de pé.

Se gostam de musicais, comédias e procuram algo de original, recomendo uma visita a este Sr. Engenheiro!

Elenco: Alexandre Carvalho, Brienne Keller, Jorge Mourato, Manuel Marques, Marta Andrino, Miguel Raposo, Samuel Alves, Sílvia Filipe, Sissi Martins e Rita Cruz

Músicos: Artur Guimarães, Tom Neiva, André Galvão, João Valpaços, Marcelo Cantarinhas, inês Nunes ou Carlos Domingues

Equipa Criativa: Encenação: Rui Melo • Texto: Henrique Dias • Assistência de Encenação: Madalena Almeida • Assistência de Encenação: Madalena Almeida • Música Original e Direcção Musical: Artur Guimarães • Direcção Vocal / Assistência Direcção Musical: Carlos Meireles • Cenografia e Figurinos: Marta Carreiras  • Confeção de Adereços e Assistência de Cenografia: Ana Sofia Gonçalves  • Confeção de Figurinos: Aldina Semedo  •  Coreografia: Joana Quelhas • Assistência de Coreografia: Joana Duran • Desenho de Luz: Paulo Sabino • Desenho de Som: Sérgio Milhano • Produção: UAU

Fotos: Pedro Sadio, Reinaldo Rodrigues, Daniel Rocha



UMA IDEIA GENIAL de Sébastien Castro

Um homem desconfia que a sua mulher se apaixonou por um agente imobiliário que conheceram há dias. Por estranha coincidência, cruza-se com um suposto actor que é um sósia perfeito do agente imobiliário e contrata-o para ele se fazer passar por este. A sua ideia é simples: o actor comporta-se de forma desagradável, de modo que a esposa perca o interesse por ele. Mas claro que não conta com alguns imprevistos, como por exemplo a metediça vizinha do lado e o irmão gémeo do actor.

Se, como eu, gostam de peças onde reina a confusão, esta comédia de origem francesa é um excelente exemplo. O encenador Ricardo Neves-Neves (ESTAR EM CASA, A FAMÍLIA ADDAMS, MÃES, NOITE DE REIS) está no seu melhor, dando-nos uma divertida sucessão de gargalhadas, cenas hilariantes e, por vezes, algumas ideias geniais (se faziam ou não parte do original, não sei). Neves-Neves é muito bom com comédia física (“slapstick” em inglês) e aqui tem um dia em cheio; quase tememos pela saúde dos actores. Não quero revelar nada, mas os práticos “efeitos especiais” são muito bons e um deles (tem a ver com a personagem da vizinha) vai ficar para sempre na minha memória.

O talentoso quarteto de actores está em perfeita sintonia com o espírito da peça. Como a esposa, Ana Guiomar tem a personagem mais calma e acreditamos que ela não percebe nada do que se passa; como o esposo, não sei como é que Cristóvão Campos (ARTE) não se engana com a confusão de nomes e personagens. A Ruben Madureira (A FAMÍLIA ADDAMScabe a tarefa mais difícil, dar vida a três sósias que nada têm a ver uns com os outros, mas fá-lo com mestria e muita graça. Por fim, temos a grande Sandra Faleiro (que já este ano tinha adorado em O FANTASMA DOS CANTERVILLE) que, como a vizinha, é absolutamente louca e inesquecível. 

Adoro comédias cuja única pretensão é fazerem-me rir e não pensar na vida, e esta fá-lo de forma brilhante. A não perder! 

Elenco: Ana Guiomar, Cristóvão Campos, Ruben Madureira e Sandra Faleiro

Equipa Criativa: Encenação: Ricardo Neves-Neves • Texto: Sébastien Castro • Tradução: Ana Sampaio • Cenário: Catarina Amaro • Figurinos: Rafaela Mapril • Desenho de Luz: Rui Seabre • Ass. Encenação: João Guimarães • Produção: Força de Produção

Fotos: Filipe Ferreira




terça-feira, 7 de abril de 2026

SWEENEY TODD – O CRUEL BARBEIRO DA RUA FLEET de Hugh Wheeler & Stephen Sondheim

Em 1997, pela mão de João Lourenço, estreou no Teatro D. Maria uma versão portuguesa deste musical, considerado por muitos como a obra-prima de Stephen Sondheim, que tive o prazer de ver e que era muito boa. Em 2007, João Lourenço volta a esse musical com uma nova produção, mas achei esta inferior à de 1997. Agora, 29 anos depois, este musical regressa aos nossos palcos numa produção da Lisbon Film Orchestra e é sempre um enorme prazer ouvir esta partitura ao vivo.

Em passos largos, é a história de um barbeiro (Sweeney) que é condenado por um crime que não cometeu, para que dessa forma um Juiz impiedoso possa ficar com a sua esposa, que enlouquece ao ser violada por este. De regresso a Londres, Sweeney procura vingança e encontra Mrs. Lovett, uma cozinheira de empadas que sempre teve um fraquinho por ele. Decidido a matar o Juiz, Sweeney decide ir assassinando outros homens até ter o Juiz nas suas mãos; sendo uma mulher prática, Mrs. Lovett sugere que usem a carne dos corpos para as suas empadas.

Ao contrário da produção de João Lourenço, o encenador Pedro Pernas (que dá, e muito bem, vida ao odioso e nojento Juiz) optou por tornar a coisa mais leve e jovem, puxando pelo lado cómico do musical e o resultado é, no meu ver, muito divertido. A meio caminho entre uma versão de concerto e uma versão teatral, Pernas aproveita bem o espaço do palco e o cenário é simples e funcional. No dia em que vi, houve umas ligeiras falhas de som e de iluminação, mas que em nada prejudicaram o gozo que me deu assistir a este musical deliciosamente negro. Também gostei da coreografia desconjuntada de Laura Póvoa, com movimentos que por vezes me faziam lembrar zombies, e que ajuda a criar o ambiente de loucura que envolve os personagens.

Num papel duplo, Ana Marta Kaufman diverte-se como Pirelli e é uma presença constante e incomodativa como a mendiga. Como o braço direito do Juíz, João Guimarães tem um olhar de sacanice que assenta que nem uma luva ao personagem. Pedro Tobias facilmente conquista a nossa simpatia como Tobias e canta com emoção a mais bonita balada do musical, “Not While I’m Around”. João Marques (o terrível SCROOOGE)  e Beatriz Cadete são o inocente, ingénuo, apaixonado e meio tonto casal romântico e estão muito bem. Vi recentemente Bryan Carvalho como o apaixonado e maniento Danny em GREASE e nunca pensei que ele tivesse o perfil necessário para fazer de Sweeney, pelo que foi uma verdadeira surpresa. Ameaçador, louco e com um vozeirão, não duvidamos das suas intenções e o seu “Epiphany” manda a “casa abaixo”. Por fim temos a inesquecível Mrs. Lovett, à qual Vânia Blubird (a hilariante hospedeira do recente COMPANY) se entrega de alma, coração e corpo, sendo impossível desviar o olhar dela sempre que está em palco. Completamente maluca, cabe a ela os momentos mais altos da noite, seja com o gostoso “The Worst Pies in London” ou com o atrevido “By the Sea”. Claro que, na companhia de Carvalho, nos dá o inesquecível “A Little Priest”, uma canção capaz de abrir o apetite a qualquer um de nós. Por fim, uma palavra para a excelente “ensemble”, por vezes fantasmagórica, outras vezes muito presente.

Caso ainda não tenham percebido, gostei mesmo muito deste SWEENEY TODD. Claro que sou suspeito, pois Sondheim é um dos meus compositores preferidos, mas recomendo uma visita a Fleet Street. E aproveitem para fazer a barba... ou talvez não. Imperdível!

PS: Lamento, mas não sei o título das canções em português.

Elenco: Bryan Carvalho, Vânia Blubird, João Marques, Beatriz Cadete, Pedro Alma, Pedro Pernas, Joâo Guimarães, Ana Marta Kaufmann, Andreia Soares, Carolina Ribeiro, Henrique Barata, Inês de Castro, Ivo Cota, José Sande, Maria Inês Cabral, Matheus Oliveira, Miguel Pina, Raquel Carvalho, Ricardo Mota, Sara Ângelo

Equipa Criativa: Texto Original: Hugh Wheeler • Música e Letras: Stephen Sondheim • Encenação: Pedro Pernas • Revisão do Guião: Teresa Mendes, Pedro Bello, Vânia Blubird • Direcção Musical: Nuno Sá • Coreografia: Laura Póvoa • Cenografia / Técnico de Palco: Kim Cachopo • Construção Cenário: Kim Cachopo e Trás Eventos • Apoio à Cenografia: Beatriz Greco • Guarda-Roupa / Figurinos: Ana Paula Rocha • Assist. Guarda-Roupa / Figurinos: Madalena Cáceres • Caracterização / Cabelos: Danila Hatzakis • Desenho de Luz: Laura Póvoa e Tiago Santos • Operação de Luz: Laura Póvoa • Técnico de Som: Quim Tó • Produção Executiva: Francisco Santiago e Pedro Bello • Assist. de Produção: David Garcez • Assist. de Encenação / Direcção de Cena:  Mari Ribeiro • Produção: Lisbon Film Orchestra

Fotos: Ben do Rosário, Paulo Miranda, Reinaldo Rodrigues