terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

AVÓ MAGNÉTICA de Pedro Sousa Loureiro

No palco, cinco actores recordam as suas avós. O ponto de inspiração para esta celebração é a avó de Pedro, Margarida Oliveira, uma mulher que nas décadas de 60/70 viveu com um tio homossexual, e que aceitou a sexualidade do seu neto sem julgamentos. 

Para ser sincero, diria que isto na realidade não é uma peça, mas sim uma verdadeira celebração, não só das avós, mas também da vida LGBT+. Os actores enchem o palco, por vezes a plateia, com energia, loucura salutar e ritmo contagiante. Por vezes deu-me vontade de subir ao palco e dançar com eles. Mas não é só de risos que se vive aqui, também tem os seus momentos mais sérios, por vezes comoventes, como por exemplo quando Margarida Bento recorda as suas avós (vieram-me lágrimas aos olhos). Uma coisa é evidente, o amor e a admiração que os actores sentem pelas suas avós.

A imaginativa e colorida encenação, mistura teatro, com cinema, entrevistas, dança, canções e muita maluquice. Somos transportados pelo excelente grupo de actores, que nos fazem crer que tudo aquilo está a ser improvisado naquele momento, para uma festa onde se fala de muitas verdades com humor e carinho. Por vezes é o completo caos... e como eu gosto de ver caos no palco!

Quanto aos cinco actores em palco, estão todos muito bem. Pedro Sousa Loureiro aka Feathering transborda energia por todos os seus poros, Margarida Bento é a sensualidade em pessoa, Violeta Luz é deliciosamente louca, Ana Graça é mais ajuizada, mas com um bom grão de loucura, e Margarida Cardeal é espontânea e cheia de graça.

Numa nota muito pessoal, que até pode não fazer sentido aqui, mas que me apetece partilhar com vocês, a peça fez-me recordar a minha avó materna. 

Ela foi a minha companheira em muitas idas ao cinema, incluindo sessões de terror à meia-noite, bem como em algumas viagens a Londres e Nova Iorque. Nessas cidades, mesmo sem saber uma palavra de inglês, ia ver os musicais comigo e com o meu então namorado; acompanhava-nos também nas longas caminhadas pelas cidades, nós de ténis, ela sempre de salto alto. Lembro-me que não podíamos entrar no wc depois dela, pois se o fizéssemos ficávamos intoxicados com os quilos de laca que ela punha no cabelo. 

Foi ela que, quando eu comecei a namorar, convidou o meu namorado para um café a dois e disse-lhe que estava feliz por eu ter encontrado alguém que gostava de mim. Foi sempre uma mulher de mente aberta, que casou com o homem de quem gostava contra a vontade dos seus pais e que foi mãe aos 16 anos de idade. Não há dúvida, as nossas avós deixaram uma grande marca em todos nós!

Voltando a esta AVÓ MAGNÉTICA, devia ser acarinhada pela comunidade LGBT+ e pelo público em geral. Diria que mais que uma peça, é uma experiência que não vos vai deixar indiferentes. É sempre bom juntarmo-nos a uma festa cheia de alegria, que nos diz que devemos ter orgulho em quem somos, independentemente da nossa sexualidade ou entidade. O importante é sermos nós próprios, sermos felizes!

Elenco: Ana Graça, Margarida Bento, Margarida Cardeal, Pedro Sousa Loureiro aka Feathering, Violeta Luz 

Equipa Criativa: Criação, Produção e Realização: Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Texto: Miguel Stichini e Pedro Sousa Loureiro aka Feathering • Música Original e Sonoplastia: Francisco Barahona aka Fresko • Participação em Video: Alex Azevedo, Ana Noronha Andrade, Gilvânio Souza Gigi e Marta Barahona Abreu • Desenho de Luz: Miguel Cruz

Fotos: Alípio Padilha


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O MEU AMIGO FREDDY KRUEGER de André Murraças

André Murraças leva-nos numa viagem nostálgica, por vezes dolorosa, aos anos 90, uma altura em que a Internet era algo ainda distante e ainda se alugavam filmes nos clubes de vídeo. Nessa altura ele, um jovem homossexual, era alvo de bullying, homofobia e gordofobia. Quando descobriu o cinema de terror, identificou-se com os seus monstros que, tal como ele, eram colocados à margem pela sociedade e tornavam-se violentos como forma de sobreviverem. Entre esses monstros, o seu preferido era Freddy Krueger, com quem criou uma bela amizade.

Num cenário simples, repleto de referências visuais dos anos 80/90, André fala-nos do que o ligava ao cinema de terror, de como se relacionava com os seus colegas, da sua necessidade de fazer parte de um grupo de amigos, de como descobriu que o humor o podia ajudar na sua vida social, a descoberta dos musicais e do mundo do teatro. Tudo isto é feito com honestidade e humor.

Excertos de diversos filmes vão pontuando a noite, com especial relevo para os filmes da série PESADELO EM ELM STREET. Receio que uma importante referência cinéfila passe despercebida ao público em geral e talvez André devesse chamar a atenção para a mesma; refiro-me à cena do filme A CORDA de Alfred Hithcock, onde dois homens estrangulam outro, esses dois homens são um suposto casal gay e um dos actores, Farley Granger, também era gay na vida real. Também temos alguns momentos musicais, que foi onde eu achei que André se entrega mais. 

Tenho que confessar que me revi em muitas das coisas porque André passou; no meu caso nos anos 70/80. Talvez por isso, ia à espera de que o espectáculo tivesse uma forte componente emocional, mas não a senti e também achei que André falha (talvez por opção) em criar empatia com nós o público, mas consegue entreter-nos durante 90 minutos e nem dei pelo tempo passar.

Infelizmente, apesar de tudo o que já se conquistou em termos de direitos LGBT+, fazer uma peça destas, em que um actor expõe a sua sexualidade sem vergonha, ainda é um acto de coragem. Recentemente assisti a isso em ODE AOS MEUS HOMENS com Rafael Diaz Costa e agora foi a vez de André Murraças. Parabéns pela coragem!

Elenco: André Murraças

Equipa Criativa: Encenação, Texto, Cenografia, Genéricos e Grafismos Video: André Murraças • Video: Três Vinténs • Fotografia: André Murraças, Matilde Fernandes e Nicole Sánchez • Apoio Cenográfico: Cândida Maria • Produção Executiva: Nicole Sánchez • Produção: Canário Bonacheirão

Fotos: Leonardo Negrão 





terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

UM PEQUENO INCIDENTE de José Pedro Peter

Numa sala de espera de um centro de saúde, dois homens aguardam o resultado do teste rápido ao VIH. Um deles muito nervoso, quase em pânico, o outro calmo e racional. Enquanto esperam, acabam por travar conhecimento um com o outro. Quando sabem os resultados, um deles desaparece sem rasto, mas o futuro tem planos para eles. 

Uma premissa muito simples, acaba por se tornar numa envolvente experiência emocional. De certa forma, quase de forma imersiva, nós estamos naquela sala de espera com os protagonistas e somos testemunhas de uma belíssima história de amor, ao mesmo tempo que somos confrontados com algumas duras realidades. Um dos personagens diz a certa altura que era preferível que o teste desse positivo, pois assim acabava-se a ansiedade e medo de cada vez que ia fazer testes... confesso que é algo que já me passou pela cabeça.

A encenação de Marco António Pâmio é genial na sua quase inexistência, dando palco aos seus protagonistas e criando uma grande envolvência entre eles e nós espectadores. É tudo tão natural, tão real, que até parece que nada foi encenado. O texto da autoria de um dos actores, José Pedro Peter, é realista, tem humor, evita lamechices e deixa-nos de coração cheio.

Quanto aos actores, Carlos Marinho e José Pedro Peter, são tão naturais na sua representação, que praticamente nos esquecemos que são actores. A cumplicidade e química entre ambos é transcendental, transformando esta história num verdadeiro acto de amor que nos deixa (ou a mim deixou) com lágrimas nos olhos.

Como dizem na peça e não podia concordar mais, mais importante do que um “eu amo-te” ou “gosto de ti” é um simples “Estou Contigo”, que tanto serve para namorados como para amigos. É bom saber que, independentemente de tudo, alguém está connosco, ao nosso lado. Que não estamos sozinhos.

Os meus sinceros parabéns a todos os envolvidos nesta peça e só lamento que tenha tido tão poucas exibições. Espero que voltem!

Elenco: Carlos Marinho, José Pedro Peter

Equipa Criativa: Encenação: Marco António Pâmio • Texto: José Pedro Peter • Direcção de Produção: Fabio Camara • Figurino: Fabio Namatame • Iluminador: Fran Barros  • Arte Gráfica: Cristian Schumann • Produção: Lugibi Produções – PedroPeterProd.

Fotos: Leekyung Kim





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A GAIVOTA de Anton Tchékhov

Num casarão no meio do campo, junto a um lago, o jovem Constantino apresenta uma peça interpretada pela sua paixão Nina; os espectadores são a sua mãe (uma actriz famosa) e um grupo de amigos desta, incluindo o seu amante, um famoso escritor de nome Alexandre Trigorin. A peça é, de certa forma, ridicularizada pela sua mãe e Nina apaixona-se pelo escritor. A partir daqui, o drama desenrola-se com paixões, amores não correspondidos, traições e, para animar a festa, tragédia.

Acreditem ou não, toda a minha vida estive convencido que este famosa peça de Anton Tchékhov era um grande dramalhão. Qual a minha surpresa ao descobrir que afinal é uma comédia... amarga e muito dramática, mas uma comédia! 

Nesta nova adaptação mais contemporânea, ganha, nas mãos experientes e talentosas de Diogo Infante, ligeireza, um apurado sentido de humor, nunca perdendo o lado trágico da história. Como é costume nas suas produções, é visualmente forte e elegante, com uma imagem do lago que serve de testemunha de tudo o que se passa. Entre o riso e a tragédia iminente, somos atraídos pelos personagens e pelas consequências das suas acções. Quase todos os personagens têm algo a esconder, com excepção do caseiro e do professor. E existe na realidade uma gaivota...

Apesar de Alexandra Lencastre ser a “cabeça de cartaz” e fazer muito bem da diva teatral cuja vida está prestes a ser abalada, para mim a grande revelação da noite é Rita Rocha Silva como Nina (curiosamente, papel interpretado por Alexandra Lencastre numa produção de 1992). Da adolescente ingénua e apaixonada, à mulher desiludida e perdida, ela é excepcional. Como o interesse amoroso de ambas, Ivo Canelas tem o balanço certo entre arrogância, gozo e egoísmo; sim, não é um personagem simpático, mas é jeitoso. André Leitão é convincente como o pretensioso, artístico e carente filho da actriz e Pedro Laginha é o simpático médico que serve de espectador aos acontecimentos. Margarida Bakker consegue esconder o seu natural glamour como a deprimida e infeliz filha dos caseiros e Guilherme Filipe é divertido como o irmão mais velho da actriz. Em papéis mais secundários, Rita Salema e António Melo dão vida aos seus papéis e, como o professor, Flávio Gil marca presença de forma calma e eficaz.

Recomendo uma visita ao Trindade para ver esta GAIVOTA e apreciarem a excelência do elenco e da produção. Vale muito a pena!

Elenco: Alexandra Lencastre, André Leitão, António Melo, Flávio Gil, Guilherme Filipe, Ivo Canelas, Margarida Bakker, Pedro Laginha, Rita Rocha Silva, Rita Salema 

Equipa Criativa: Versão e Encenação: Diogo Infante • Texto: Anton Tchékhov • Apoio à Dramaturgia: Margarida Tavares • Cenografia: Catarina Amaro • Figurinos: Filipe Faísca • Desenho de Luz: Nuno Meira • Música Original: Artur Guimarães • Sonoplastia: Rui Santos • Assistência de Encenação: Flávio Gil • Direcção de Cena: Raquel Caetano • Técnicos de Palco: Pedro Viegas, Tiago Areia, Tatiana Damaya e Renata Cruz • Operação de Luz: Alexandre Jerónimo Ponto: • Operação de Som: Rui Santos Ponto • Guarda-roupa: Joana Margarida • Fotografia Cartaz e Spot TV: Pedro Macedo – Framed Photos  •  Produção: Teatro da Trindade INATEL

Fotos: Alípio Padilha e Manuel Rodrigues


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O FANTASMA DOS CANTERVILLE de Oscar Wilde

Uma família americana compra a velha mansão dos Canterville em Inglaterra, onde durante séculos o fantasma de Sir Simon tem assombrado e assustado os seus proprietários anteriores. Ao princípio, os americanos não acreditam em fantasmas, mas contra factos não há argumentos e, sem medo, tornam-se um pesadelo para o fantasma.

Publicado em 1887, este conto de Oscar Wilde já foi alvo de várias adaptações teatrais e cinematográficas (lembro-me de ver uma na televisão quando era puto, onde David Niven fazia de fantasma). Desta vez temos uma versão portuguesa com um espírito muito britânico.

O cenário é austero, fazendo lembrar os filmes de terror gótico de antigamente, havendo alturas em que sentimos que estamos a assistir a uma sessão espírita. A iluminação é brilhante e os efeitos práticos e eficazes na sua simplicidade. Apesar do humor, quando tudo fica às escuras, não deixamos de sentir um pequeno calafrio.

O elenco está espiritualmente inspirado e encarna a teatralidade da peça. Joana Campos narra os acontecimentos assustadores com seriedade e António Mortágua marca presença como o fantasma assombrado. André Pardal encarna na perfeição o pai de família americano e Sandra Faleiro diverte-se como a sua esposa; como os seus filhos, João Bravo dá vida aos traquinas gémeos, João Pedro Dantas é o prático filho mais velho e Mafalda Jara é a doce filha, um ser de luz na escuridão da mansão.

Com uma encenação lúgubre, sóbria, elegante e divertida de Bruno Bravo, pontuada com algumas velhas canções, aconselho uma visita à mansão dos Canterville e ao seu fantasma assombrado.

Elenco: António Mortágua, André Pardal, Joana Campos, João Bravo, João Pedro Dantas, Mafalda Jara, Sandra Faleiro

Equipa Criativa: Adaptação e Encenação: Bruno Bravo • Texto: Oscar Wilde • Cenografia, Figurinos e Adereços: Stephane Alberto • Desenho de Luz: António Villar • Assistente de cenografia: Margarida Silva • Construção de cenário: David Paredes e Nuno Tomaz •  Assistente de figurinos: Joana Veloso • Costura: Inês Correia e Inês Batista • Direção de Produção: Telma Grova • Assistente de produção: Inês Felix • Assistência de Encenação e Direção de Cena: Margarida Lopes Batista • Assistência técnica: Nell Heuer • Operação Técnica: Rafael Ligeiro • Video: Tiago Nuno • Media Partner: Antena  • Produção: Primeiros Sintomas

Fotos: Sérgio Lemos 





quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

FETICHES

Num espaço seguro, dois homens convidam-nos a falar e a ouvir falar de fetiches, tudo sem tabus e não esquecendo que o que acontece naquela sala de teatro fica naquela sala. O resultado é divertido.

Com simpatia e humor, João Borges de Oliveira e Miguel Migueis explicam-nos o que são fetiches e, tendo em conta os seus estudos superiores (um no Matogrosso e o outro nos Países Baixos), ninguém porá em causa as suas palavras, os seus ensinamentos, as suas sugestões.

Como já devem ter percebido, estamos perante uma peça de teatro onde o improviso é o rei da noite. Logo quando chegamos ao teatro somos convidados a escrever, anonimamente, qual o nosso fetiche ou fetiches; mas não se assustem, não temos de os assumir em público, só se estivermos para aí virados e nos quisermos juntar à festa.

Entre muita gargalhada, posso garantir que fiquei a saber de coisas que nunca me passariam pela cabeça que pudessem ser fetiches, mas na verdade ele há gostos para tudo e o importante é sermos felizes. Os dois actores acompanham-nos nessa viagem, com olhares de cumplicidade, por vezes perdidos de riso (tal como nós), outras surpreendidos, mas no final saímos bem-dispostos do teatro e, nos dias de hoje, isso sabe muito bem.

Aceitem o convite, libertem-se e venham falar ou ouvir falar de fetiches!

Elenco: João Borges de Oliveira, Miguel Migueis

Equipa Criativa:  Desenho de Luz e Op. Técnica: Enzo Ballaré • Fotografia: Patrícia Blázquez • Comunicação e Imagem: Ana Veiga • Produção: Boutique da Cultura




sábado, 27 de dezembro de 2025

UM QUINTETO DE MORTE de Graham Linehan

Em 1956 estreia por cá O QUINTETO ERA DE CORDAS (The Ladykillers), cujo argumento original de autoria de William Rose foi nomeado para o Óscar; à frente do elenco, o grande Alex Guiness (que viria a ficar mais conhecido por ser o Ben Obi-Wan Kenobi do STAR WARS). Em 2004, os irmãos Coen dirigem uma nova versão deste filme com Tom Hanks no papel do Professor Marcus. Em 2011, o filme foi adaptado aos palcos ingleses e é essa versão que chega agora até nós.

A história é simples. Um grupo de criminosos, disfarçados de um quinteto de músicos, alugam um quarto na casa de uma velhota solitária que, não desconfiando dos seus nefastos negócios, acaba por interferir sem querer com os mesmos.

O que temos aqui é uma comédia britânica à moda antiga, com muito humor negro e bons momentos de comédia física. Frederico Corado dirige com graça, aproveitando ao máximo tudo aquilo que o cenário (também de sua autoria) lhe permite. Os acontecimentos fluem sem atropelos no palco, os personagens vão-se revelando de forma divertida e o resultado é uma agradável noite (ou tarde) de teatro.

Quanto ao elenco, todos estão à altura do que lhes é pedido, fazendo-o com talento e bom sentido cómico. No papel da velhota, carinhosamente chamada de “Pantufinha” por um dos “maus”, Florbela Queiroz é deliciosa e continua cheia de energia. No papel do Professor Marcus, o cabecilha do quinteto, José Raposo é um verdadeiro “falinhas mansas”. Quanto aos restantes, o meu preferido é o divertido Ricardo Raposo como o “bronco” K.O.

Se estão à procura de cerca de duas horas de bom entretenimento, daquele que nos faz rir sem termos que pensar muito, esta comédia é indicada para vocês.

Elenco: Florbela Queiroz, José Raposo, João Maria Pinto, Heitor Lourenço, Miguel Raposo, Ricardo Raposo, António Machado, Fátima Severino, Lourdes Lima, Teresa Sanchez, Natália Guimarães 

Equipa Criativa: Encenação: Frederico Corado • Texto Original: Graham Linehan, inspirado no argumento de William Rose • Tradução: Frederico Corado • Cenografia e Figurinos: Frederico Corado • Assistência de Encenação: Bárbara Barradas • Desenho de Luz: Paulo Sabino • Video, Fotografia e Design: Renato Arroyo • Making Of: Beatriz Cachulo: • Produção: UAU

Fotos: Renato Arroyo


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O ARQUITECTO E O IMPERADOR DA ASSÍRIA de Fernando Arrabal

Numa ilha deserta, algures neste planeta, vive sozinho o Arquitecto. Um dia, um avião despenha-se na ilha e o único sobrevivente do acidente é o suposto Imperador da Assíria.

Não conhecia esta peça, escrita em 1967 por Fernando Arrabal, mas tendo em conta a linguagem utilizada, julgo que foi actualizada para os nossos tempos, mantendo o espírito do original. Na encenação “despida” de João Mota, onde a areia é um complemento aos personagens, descobrimos dois homens, um ingénuo e inocente, o outro um conhecedor dos prazeres e horrores da civilização. Entre os dois, iniciam-se uma série de jogos, por vezes um pouco surrealistas, que de certa forma são um olhar crítico ao mundo actual.

Para uma peça destas funcionar, é preciso dois actores que se entreguem totalmente aos seus papéis e que entre os quais dois exista uma química palpável. Felizmente, Francisco Pereira de Almeida e Rogério Vale foram a escolha certa. O primeiro dá ao Arquitecto um ar de criança grande, que acredita na magia e para quem tudo é um jogo. O segundo dá-nos um Imperador com manias de grandeza e ditatoriais, mas também de uma grande fragilidade. Por razões óbvias, o seu personagem é muito mais rico e interessante. Rogério Vale comanda o palco, ou devo dizer o areal? Mas entre os dois actores existe uma cumplicidade, diria por vezes homoerótica, que é o verdadeiro coração da peça.

Acreditem que este não é o meu tipo de peça e sei que não é para todo o público, mas foi uma agradável surpresa e foi com agrado que aplaudi os actores de pé. Infelizmente, a sua carreira termina já dia 14 deste mês, pelo que recomendo que se apressem a comprar bilhetes, pois vale mesma a pena!

Elenco: Francisco Pereira de Almeida, Rogério Vale

Equipa Criativa: Encenação: João Mota • Texto: Fernando Arrabal • Tradução: Luís Vasco •  Assistentes de Encenação: Miguel Sermão, Madalena Nestório (estagiária Escola Secundária D. Pedro V) • Desenho de Luz: Paulo Graça • Ambiente Sonoro e Sonoplastia: Hugo Franco • Cenografia: Renato Godinho, João Mota • Teasers: Jorge Albuquerque • Operador de Luz/Som: Hugo Franco, Bruno Simões, Afonso Silva • Técnicos de Montagem: Renato Godinho, Assunção Dias • Gabinete de Produção: Rosário Silva, Carlos Bernardo, Catarina Oliveira • Assistência Geral: Assunção Dias, Selma Meira, Julieta Lucas • Estagiário Técnica: Bruno Simões

Fotos: Pedro Soares, Manuel de Almeida (Lusa)




quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

ESTAR EM CASA de Ricardo Neves-Neves / DEFINITIVAMENTE AS BAHAMAS de Martin Crimp

Presumo que, presentemente, Ricardo Neves-Neves é o encenador mais em destaque em Lisboa, não com uma, mas sim com três peças em exibição: o hilariante musical MÃES e estas duas estreadas no final de Novembro no Teatro Variedades.

Estas duas peças, apesar de serem ambas comédias, não podiam ser mais diferentes. Em ESTAR EM CASA, Neves-Neves adapta de forma brilhante a obra de Adília Lopes ao palco. Já em DEFINITIVAMENTE AS BAHAMAS, encena com base num texto original do dramaturgo inglês Martin Crimp, com tradução de Isabel Lopes.

Vamos começar pelas BAHAMAS, onde um casal já de idade avançada partilha connosco histórias da sua vida e da dos outros, acabando por se revelarem xenófobos. Adoro o trabalho de Neves-Neves, mas tenho que confessar que não gostei desta peça. Começa bem, com um cenário que promete uma comédia engraçada, mas perto do meio, comecei a perder o interesse pelos personagens e desliguei-me. Ainda assim, apreciei a sempre talentosa Custódia Gallego. A verdade é que esperava uma comédia divertida e meio-maluca, e saí decepcionado.

ESTAR EM CASA já é outra história. Simplesmente adorei esta peça! Não conhecia a obra de Adília Lopes, por isso não sei dizer se Neves-Neves faz uma boa adaptação da mesma, mas o resultado é brilhante. Na encenação imaginativa dele e nas mãos seguras de Sílvia Filipe, é um momento inesquecível de teatro, daqueles que nos enche o coração.

Aqui, Neves-Neves está naquilo que eu acho ser o seu território. Uma loucura saudável transborda do palco, envolvendo-nos de forma agradável e criando uma grande empatia entre nós e a actriz. A ideia da animação é genial e pontua a peça de forma simples e cheia de graça. Eu que nem sou apreciador de poesia, deixei-me levar pelo texto e pela forma como flui sem sabermos para onde nos vai levar a seguir. Fantástico!

Voltando a Sílvia Filipe, que já tinha tido o prazer de ver partilhar o palco em A FAMÍLIA ADDAMS e QUERIDO EVAN HANSEN, aqui comanda o palco só por si, numa interpretação excepcional, digna de todos os prémios que possa haver. A versatilidade desta actriz é espantosa, conseguindo fazer-nos rir, comover, enquanto canta sem esforço. Para ser honesto, ela não está propriamente sozinha em palco, de vez em quando é visitada por uns “personagens” deliciosos e, algures por detrás da cortina, Simão Bárcia dá-lhe o devido apoio musical. 

Por mim, teria ficado toda a noite nesta casa construída por Neves-Neves e na companhia memorável de Silvia Filipe e seus “companheiros”. ESTAR EM CASA assim, vale mesmo a pena!















DEFINITIVAMENTE AS BAHAMAS

Elenco: Custódia Gallego, Marques D’Arede e Cristina Gayoso Rey

Texto Original: Martin Crimp • Tradução: Isabel Lopes • Encenação: Ricardo Neves-Neves • Desenho de luz: Cristina Piedade • Art design: José Cruz • Fotografia: António Ignês • Vídeo promocional: Eduardo Breda • Caracterização e cabelos: Marco Santos • Coordenação técnica: Cristina Piedade • Produção e direção de cena: Teatro do Eléctrico - Sílvia Moura • Produção: Culturproject - Nuno Pratas • Difusão: José Leite • Produção: Culturproject, Teatro do Eléctrico e Cineteatro Louletano

Fotos: Estelle Valente














ESTAR EM CASA

Elenco: Sílvia Filipe

Equipa Criativa: Textos Originais:  Adília Lopes • Dramaturgia e Encenação:  Ricardo Neves-Neves • Música: Simão Bárcia • Canções:  Maia Balduz e Simão Bárcia • Desenho de Luz e Coordenação Técnica:  Cristina Piedade • Cenografia: Eric da Costa • Artes finais de cenografia: Rita Vieira •Construção de cenário e adereços: José Pedro Sousa, Paula Hespanha e Rita Vieira • Ilustração e Vídeo: Inês Silva • Video Mapping: Eduardo Cunha • Figurinos: Rafaela Mapril • Cabelos:  Carlos Feio • Desenho de Som e Sonoplastia: Sérgio Delgado • Fotografia de Cartaz: Filipe Ferreira • Design Gráfico:  Renato Arroyo • Design Gráfico Teatro do Eléctrico:  José Cruz •  Vídeo Promocional: Eduardo Breda • Assistência de Encenação: José Leite • Segundo Assistente:  Tiago Estremores • Produção e Direção de Cena Teatro do Eléctrico:  Sílvia Moura • Produção Culturproject:  Nuno Pratas • Coprodução Teatro do Eléctrico, Cineteatro Louletano e Culturproject

Fotos: Estelle Valente e Humberto Mouco


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

ODE AOS MEUS HOMENS ou O MAIOR SILÊNCIO DO MUNDO de Rafael Diaz Costa

Num palco quase vazio, um actor entrega-se de alma e coração ao seu personagem, despido de moralismos, preconceitos, medos. A sua interpretação transborda de todos os seus poros, num tour de force que não deixa ninguém indiferente. 

O actor em questão é Rafael Diaz Costa, um dos jovens talentos que tive o prazer de descobrir no Teatro Rápido, onde nos deu um inesquecível PROFESSOR ROBERTO. Tal como nessa curta peça, o texto também é da sua autoria. A história, semiautobiográfica, fala-nos de um homem gay, das suas paixões, das suas perdas, dos seus sonhos. Duvido que haja algum homem gay que não se reveja em uma ou mais situações, o que faz deste retrato íntimo uma experiência emocional muito próxima de nós. 

Sempre disse que “menos é mais”, ou como com pouco se faz muito, e essa é a abordagem inspirada da encenadora Íris Macedo. Com meia-dúzia de objectos, uma eficaz iluminação de Filipe Pacheco, usando a sua e a nossa imaginação, ela consegue transformar o palco numa discoteca, num quarto e outros locais. Consegue evitar as lamechices, bem como a militância LGBT+, a que a história se podia prestar, e dá-nos um retrato honesto e sensível de um homem que só pretende amar e ser amado... não é que todos queremos?

Esta produção do Teatro Bravo merece a vossa atenção e aplauso. Por isso, façam o favor a vós próprios de irem ver esta ODE AOS MEUS HOMENS, onde Rafael Diaz Costa vai conquistar o vosso coração. Não se vão arrepender!

Elenco: Rafael Diaz Costa

Equipa Criativa: Encenação: Íris Macedo • Texto: Rafael Diaz Costa • Direção de Corpo: Margaria Borges • Desenho de Luz e Som: Filipe Pacheco • Voz Off: Gonçalo Lino Cabral • Produção: Teatro Bravo • Apoio à Produção: Teatro Papa-Léguas

Fotos: Filipe Ferreira