terça-feira, 14 de julho de 2026

AMÉLIE – O MUSICAL de Craig Lucas

Em Dezembro de 2001, estreou nos nossos cinemas o filme O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE, que não só foi um grande sucesso de bilheteira, bem como um filme que marcou muitas pessoas e se tornou num título de culto. Claro que alguém achou que a sua história se prestava a ser um musical de palco, que chegou à Broadway em 2017 e a Londres em 2021. Nenhuma das produções teve grande sucesso, mas o fenómeno AMÉLIE nunca perdeu a sua magia e agora chega até nós pelas mãos experientes da Stagedoor, que este ano já nos deu o emocional CALENDAR GIRLS e o divertido MAUS HÁBITOS.

Para quem não se lembra, aqui fica uma breve sinopse. Amélie é uma tímida empregada de mesa que vive no seu mundo imaginário. Um dia, no seu apartamento, encontra uma velha lata cheia das memórias de alguém. Decide encontrar a pessoa a quem pertence a lata, bem como tentar ajudar as pessoas a serem felizes. Entretanto, o seu caminho cruza-se com o de um jovem e pode ser que ela encontre também a felicidade.

Assim que a gravação do elenco da Broadway foi editada, fui logo ouvir a mesma e confesso que fiquei decepcionado, esperava melhores canções. O mesmo aconteceu com a gravação do elenco londrino e presumi que o problema do musical era a sua partitura. Agora que vi o AMÉLIE no palco, diria que a música muito parisiense está em sintonia com a história, mas sim, falta-lhe canções que fiquem no ouvido. Mas isso em nada afectou o espectáculo harmonioso a que tive o prazer de assistir ontem à noite.

Existe uma atmosfera de encantamento nesta produção, encenada por João Duarte Costa, que se encaixa perfeitamente no espírito da história de Amélie. Tem uma espécie de aura mágica que se estende do palco até nós, espectadores. Talvez sejam as cores que envolvem os personagens, talvez seja a iluminação, o simples cenário de cartão, o humor quase ingénuo... bem, acho que é o todo! Sente-se também a forma com que os personagens são acarinhados pelo encenador.

O musical não é só sobre Amélie, mas é ela a força motora do mesmo, e está bem entregue nas mãos de Cláudia Rosa que, com um ar de pura parisiense, nos conquista o coração com simpatia e seu jeito meio estranho. João Diniz é o tímido e meio desajeitado Nino, o alvo da sua atenção, e ninguém tem dúvidas que eles foram feitos um para o outro. Mateus Whytton Borges desdobra-se (muito bem) em vários papéis, nomeadamente como o ausente pai de Amélie e como o solitário pintor vizinho de Amélie. Samanta Sousa (a dona do café), Beatriz Sousa, (a apaixonada viúva), Alice Arrifano (uma espécie de divertida “new age”) e Sara Venâncio (a hospedeira) dão vida e cor ao pequeno grupo que rodeia Amélie, do qual também faz parte Vicente Neves como o desinspirado escritor. Destaque ainda para Pietro Pizzo, que nos dá um “glittering” Elton John e um meio louco canalizador, e para um inocente Tomás Mourato e seus adorados frutos. Mas todo o elenco vai muito bem, movimentando-se por vezes num todo e entregando-se com alma à coreografia de Marta Almeida.

Uma produção em estado de graça, que nos enche o coração de amor e esperança... algures por aí, a felicidade espera por nós!

Mais uma vez, os meus parabéns à Stagedoor e que continuem a manter vivo o Teatro Musical por muitos e muitos anos. Obrigado!

Elenco: Cláudia Rosa, João Diniz, Mateus Whytton Borges, Ana Isabel Gomes, Samanta Sousa, Beatriz Sousa, Alice Arrifano, Sara Venâncio, Vicente Neves, Pietro Pizzo, Tomás Mourato, Maria Bártolo, Sofia Belém, Vera Freire, Teresa Costa, Beatriz Vasconcelos, Mafalda Correia, Carolina Almeida, Madalena Oliveira, Madalena Braga, Mariana Gonçalves, Catarina Dias, Sofia Chaves, Inês Moura, Larissa Angeli, Kaya Barros, Bruna Camarinha, Soraia Torres, Gessika Cunha, Maria Gama 

Banda: Carlos Meireles, João Norte, Francisco Neves, Sérgio Fuiza Duarte

Equipa Criativa: Encenação: João Duarte Costa • Texto Original: Craig Lucas • Música: Daniel Messé • Letra: Daniel Messé & Nathan Tysen • Tradução e Adaptação: Raquel Pereira, Maria Mascarenhas, João Duarte Costa e Ana Stilwell • Direção Musical: Carlos Meireles • Coreografia: Marta Almeida • Cenografia: Maria Mascarenhas, Leonor Bivar, Nuno Baptista, João Duarte Costa e Lara Rocha • Adereços: Lara Rocha, Maria Mascarenhas, Inês Garcia e João Duarte Costa • Figurinos: João Duarte Costa, Lara Rocha e Inês Garcia • Direcção de Cena: Lara Rocha • Assistência de Cena: Inês Garcia • Contra-regras: Lara Rocha & Inês Garcia • Som: Eduardo Mota & João Branco • Luz: Paulo Santos e José Caratão • Direcção Artística: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical, João Pães Prata Lda • Assistente de Produção: Lara Rocha e Inês Garcia • Poster e Grafismo: Lara Rocha

Fotos: Luís Chaves


segunda-feira, 6 de julho de 2026

CARRIE – O MUSICAL de Lawrence D. Cohen

A produção original da Broadway estreou em 1988 e foi um fracasso tão grande que depressa se transformou num musical de culto. Antes e depois de CARRIE houve muitos e piores fracassos, mas este ficou na história ao ponto de ter servido de título ao livro NOT SINCE CARRIE – 40 YEARS OF BROADWAY MUSICAL FLOPS de Ken Mandelbaum, cuja leitura é obrigatória para qualquer amante de Teatro Musical.

A adaptação cinematográfica da novela CARRIE, de Stephen King, tinha sido um sucesso e não é de estranhar que alguém achasse que podia dar um bom musical de teatro. O argumentista do filme, Lawrence D. Cohen, adaptou a história ao palco; as canções eram da autoria da dupla Michael Gore & Dean Pitchford, que tinham tido um grande sucesso com as suas canções para o filme FAME; para a coreografia, escolheram Debbie Allen, estrela do FAME e, num momento inspirado de “casting”, a actriz Betty Buckley, que fazia da professora no filme, era agora a mãe fanática de Carrie. Apesar disto tudo, os críticos não gostaram, o público não comprou bilhetes e o musical fechou as suas portas ao fim de 21 representações.

Sendo apaixonado por musicais, bem como um fâ do filme de Brian De Palma, que vi numa sessão da meia-noite há muitos anos, tive sempre uma grande curiosidade em relação a este musical e, graças à escola Primeiro Acto, pude finalmente realizar esse meu sonho. 

Ao contrário do filme, a acção do musical existe dentro da mente traumatizada de Sue, que é obrigada a contar várias vezes os acontecimentos que levaram à tragédia no “prom” (baile de finalistas).

Carrie é uma adolescente tímida e inocente, que vive subjugada pela sua religiosamente fanática mãe e que é alvo de gozo pelas suas colegas. No dia em que lhe aparece pela primeira vez a menstruação, algo muda dentro dela e acaba por descobrir que tem um poder especial, telecinesia (“capacidade de mover ou manipular objetos e sistemas físicos usando apenas a mente, sem contacto físico ou interação mecânica”). Uma das suas colegas, Sue, arrepende-se de ter gozado com ela e convence o seu namorado a convidar a Carrie para o “prom”, não prevendo as consequências de tal acto.

Quando entrei na sala de teatro e comecei a ouvir a fantástica banda sonora do filme, da autoria de Pino Donaggio, percebi logo que estava nas mãos de alguém que tinha respeito pelo filme. O lado sobrenatural da história é, por razões práticas, mais contido aqui, mas eficaz na sua simplicidade e, no clímax, pela entrega física do elenco. Não esperem grandes números musicais, pois a dança não é um componente forte nesta produção (acredito que no fracasso original, Debbie Allen deve ter posto o elenco a mexer-se bem). À encenadora Sofia de Castro, interessa-lhe mais o lado humano da história, tornando este musical numa experiência por vezes intimista e, sem dúvida, mais realista que o filme. Julgo que um dos problemas deste musical são as canções, pois com excepção do belíssimo “Um Inocente Amor” ("Unsuspecting Hearts"), cantado por Miss Gardner (a professora de ginástica) e por Carrie, o resto não é muito interessante; já tinha percebido isso quando ouvi a gravação do elenco da produção Off-Broadway de 2012.

Não é fácil alguém conseguir fazer esquecer Sissy Spacek no papel, mas Rafaela Ribeiro depressa conquista a nossa simpatia como a inocente e carente Carrie, transformando-se diante dos nossos olhos na “princesa” feliz e corajosa que vai ao “prom”. Tudo isto, enquanto nos presenteia como uma voz forte e bonita. No papel da mãe, Sofia de Castro não é a personagem “over-acting” que Piper Laurie nos dava no filme, mas sim uma mulher desiludida com a vida, que se entregou a Deus e que quer proteger a sua filha dos males do mundo; a sua voz operática é perfeita para o personagem e ela está fantástica.

Tive pena que Bruna L. Rocha, como Miss Gardner, não cantasse mais, mas canta a melhor canção de todas e convence na sua empatia por Carrie. Pessoalmente, achei que Carolina Ferreira como Sue e Tomás Esteves como o seu namorado, apesar de talentosos, eram demasiado doces nos seus papéis. Por outro lado, Inês de Castro é uma verdadeira cabra como Chris, arrogante, egoísta e incapaz de sentir empatia seja por quem for; quando está em palco é difícil desviarmos o olhar dela. A seu lado, Tiago Ferreira é o perfeito “bronco”. O restante elenco entrega-se com energia aos seus papéis.

Para terminar este longo comentário, só mais uma coisinha. Só recentemente descobri o fascinante mundo dos musicais produzidos pelas escolas de teatro musical de Lisboa e tem sido uma agradável surpresa. Os meus parabéns a todas e, neste caso, principalmente à Primeiro Acto.

Elenco: Rafaela Ribeiro, Sofia de Castro, Carolina Ferreira, Tomás Esteves, Inês de Castro, Tiago Ferreira, Bruna L. Rocha, Gonçalo Elias, Bekas Duarte, Madalena Menezes, Mafalda Baptista, Gil Raposo, Rafael Costa, Rodrigo Brito, Carolina Torrinha, Diogo Orlindo, Mafalda Mateus, Mariana Soares, Ava Miguel, Matilde Pichstein, Siddártha Barbosa, Simão Pedro, Pedro Pichstein, Andreia Soares, Clara Compõete, Pedro Santos, Joana Bento, Tiago Vicente, Luísa Pereira




quarta-feira, 17 de junho de 2026

MAUS HÁBITOS de Dan Goggin

A comédia musical NUNSENSE, escrita por e com canções de Dan Goggin, teve a sua estreia Off-Broadway em 1985 onde esteve em exibição durante 10 anos. Viria a dar lugar a seis sequelas e a três “spin-offs”. Agora chegou às mãos competentes da Stagedoor (uma escola de teatro musical) como espectáculo de final de ano da sua Turma Iniciada do Curso Aberto.

A história é mais ou menos simples. Um acidente culinário provoca a morte de 52 freiras da ordem do Calvário e Outros Males; a fim de conseguirem pagar os funerais das Irmãs, as sobreviventes (estavam num jogo de bingo) fazem um “crowd funding”, mas a Madre Superiora acha que o dinheiro também chega para um Smart TV e, como resultado, quatro freiras ficam por enterrar. Então, para angariarem dinheiro para o funeral dessas Irmãs, decidem montar um pequeno espectáculo musical.

Há algo de irresistível em vermos freiras a cantar e a dançar. Provavelmente a culpa é da Maria Von Trapp da MÚSICA NO CORAÇÃO, mas é sempre engraçado e então se elas forem malandrecas, melhor ainda. As onze Irmãs deste musical são tudo isso: malandrecas, divertidas e cantam e dançam (até sapateiam) com alegria. Nós, os espectadores, somos convidados a abençoar o seu show com os nossos aplausos e gargalhadas.

Acredito que André Barroca Sobral se divertiu a encenar este alegre musical e que a coreógrafa Margarida Campos deve ter-se deliciado em pôr as Irmãs a dançar. Quanto ao elenco, diria que todas dão o seu melhor, com destaque para Inês Raposo como a Madre Superiora, que tem uma cena muito divertida com um “frasquinho mágico”, para Mariana Barata Gil como a Irmã Humberta que lidera as Irmãs num bem-disposto número de sapateado e, no final, num contagioso “godspell” e para Marta Dalfonso como a Irmã Ana Roberta, a mais vivida das Irmãs. Mas, tenho que confessar, a minha preferida é Íris Mendão como a deliciosa Irmã Amnésia.

Infelizmente, este espectáculo celestial só teve duas exibições e temo que não ressuscite, mas se o fizer façam-lhe uma visita e vão ver que MAUS HÁBITOS, Deus me perdoe, são sempre bem-vindos. 

Elenco: Inês Raposo, Marta Dalfonso, Mariana Barata Gil, Íris Mendão, Margarida Barbeira, Diva Pereira, Maria Inês Paz, Hagit Marom, Catarina Simões, Marta Canha e Sá, Luisa Vaz

Equipa Criativa: Encenação: André Barroca Sobral • Texto Original e Canções: Dan Googin • Adaptação: André Barrosa Sobral e Ana Stilwell • Coreografia: Margarida Campos • Direção Musical: Zita Milene • Apoio Coreográfico: Catarina Alves e Sara Venâncio • Direção técnica: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical

Fotos: Telma Meira






































segunda-feira, 15 de junho de 2026

DA BOCA P'RA FORA de Jonathan Lewis & Miranda Foster

Quatro actores partilham um pequeno apartamento que serve de refúgio às suas vidas pessoais. Todos se preparam para uma greve, pois a sua profissão enquanto actores de dobragens está em risco por causa da IA. Entretanto, um jovem actor entra nas suas vidas e as coisas complicam-se.

Com o título original de ALL MOUTH, esta peça teve a sua estreia em Londres em 2007 e, a avaliar pelo que li, parece que os críticos britânicos não gostaram assim muito. Assistindo a esta adaptação portuguesa, não percebo porque é que assim foi. Sou então levado a crer que esta produção é melhor que a original.

Nas mãos Flávio Gil, o cenário único é aproveitado de forma hábil e os dramas daqueles quatro amigos são tratados com sentido de humor. Diria que é uma comédia amarga, onde se dizem coisas “da boca para fora”, sem verdadeira intenção de magoar, e onde se ocultam coisas uns dos outros. Curioso, e apesar de não poderem ser mais diferentes, esta é a segunda peça (a outra foi a RADOJKA) que vejo num curto espaço de dias onde se fala dos que as pessoas são capazes de fazer para terem trabalho e assim sobreviverem. E quem somos nós para julgar as suas escolhas? 

O elenco é todo ele muito bom. Com naturalidade e graça, facilmente nos fazem acreditar nos sonhos, medos e desilusões daquele interessante grupo de personagens. João Cabral é António, o actor veterano pateticamente apaixonado pelo jovem actor e ainda preso a velhos valores morais; André Leitão (que no início do ano vi em A GAIVOTA) é Rodrigo, o sonso e intrometido jovem actor; Marta Gil (que ainda recentemente era uma vampira em A VELHA SENHORA) é Telma, uma actriz talentosa com medo do palco; Sara Barradas é Bia, uma actriz a atravessar um divórcio complicado; Diogo Martins é Carlos, um actor desesperado por conseguir trabalho numa telenovela; por fim, Rui Rebelo é o músico que nos dá a banda sonora da peça.

Com muita gargalhada (delirei com as cenas das dobragens e com os anúncios publicitários), mas também com muitas verdades e coisas que nos deixam a pensar, acredito que esta peça merecia ter uma carreira mais longa e espero que volte rapidamente aos nossos palcos. O meu sincero aplauso a toda a equipa!

Elenco: André Leitão, Diogo Martins, João Cabral, Marta Gil, Rui Rebelo, Sara Barradas 

Equipa Criativa: Encenação: Flávio Gil • Texto: Jonathan Lewis & Miranda Foster • Tradução/Assistência de Encenação: João Soares dos Reis • Adaptação: Flávio Gil e João Soares dos Reis: • Cenografia: Flávio Gil • Figurinos: Dino Alves • Desenho de Luz: Paulo Santos • Fotografias/Design Gráfico: André Piçarra • Produção Executiva: André Camilo • Produção: Camarote Produções e São Luiz Teatro Municipal

Fotos: EGEAC – Teatro São Luiz, Pedro Rosário Nunes




terça-feira, 9 de junho de 2026

RADOJKA de Fernando Schmidt & Christian Ibarzabal

Esta peça teve a sua estreia no Uruguai em 2021, com o título RADOJKA (SI TE MUERES, TE MATO)”, e conta a história de Glória e Lúcia, que cuidam à vez de uma idosa da Sérvia. Quando algo de inesperado acontece à velhota, elas, a fim de não perderem o seu emprego, tomam uma decisão inesperada.

Se gostam de comédia negras, bem-dispostas e com muitas gargalhadas, esta RADOJKA cumpre todos esses requisitos. Com um só cenário e uma encenação simples que dá enfâse ao texto e aos actores, são cerca de 90 minutos bem passados. Até temos direito a uma canção original da autoria de Ménito Ramos. 

No fundo é um olhar humorístico, quase macabro, sobre o que as pessoas estão dispostas a fazer a fim de sobreviverem.


No palco, duas excelentes comediantes divertem-se com o texto e com as suas personagens, levando-nos na sua salutar maluquice. Marina Mota é um verdadeiro “animal de palco” e de uma comicidade irresistível. Rosa Villa consegue fazer-lhe frente com humor e talento. Num papel muito, muito secundário, Diogo Chamorra dá um ar da sua graça (e até é um moço engraçado).

Cada vez precisamos mais de rir e esta RADOJKA é um bom remédio!

Elenco: Marina Mota, Rosa Villa, Diogo Chamorra

Equipa Criativa: Encenação: Marina Mota • Texto: Fernando Schmidt & Christian Ibarzabal • Direção Plástica: Helena Reis • Música: Ménito Ramos • Produção: Marina Mota Produções


quinta-feira, 4 de junho de 2026

CALENDAR GIRLS – O MUSICAL de Tim Firth

Há mais de 20 anos, estreou nos nossos cinemas o filme MENINAS DE CALENDÁRIO com Helen Mirren e Julie Walters à frente do elenco. Anos mais tarde, em 2015, foi adaptado ao teatro como um musical e teve a sua estreia em Londres em 2017. Agora esse musical chega até nós numa adaptação portuguesa nas mãos competentes da Stagedoor (uma escola de teatro musical em Lisboa).

Baseado numa história verídica, fala-nos de um grupo de mulheres que, contra tudo e todos, decidem posar nuas para um calendário, cujas vendas revertem para a compra de um sofá. Eu explico, o marido de uma delas (Annie) morre com um cancro e ela apercebeu-se de quão desconfortável era a sala de espera do hospital onde aguardava pelo seu marido; assim, em honra dele, decidem avançar com este projecto de caridade.

Eu sou um mero espectador que gosta de teatro, principalmente de teatro Musical. Pessoalmente não distingo entre teatro profissional e teatro amador, mas sim entre teatro bom e teatro menos bom. Tudo isto para dizer que esta produção que faz parte do currículo escolar da Stagedoor, pode ser considerada como teatro amador, mas de amador não tem nada e é muito boa. Só lamento que a sua carreira tenha sido limitada a quatro sessões.

Tal como já havia acontecido com outra produção da produção da Stagedoor, (AS BRUXAS DE EASTWICK), André Lourenço (desta vez com a ajuda de Raquel Pereira) continua a demonstrar ser um encenador de talento, despretensioso e com o coração no sítio certo. Demonstrando um grande carinho pelos actores e seus personagens, dão-nos aqui uma comédia dramática muito emocional, evitando, com humor, cair na lamechice a que o tema se propicia. Os meios à sua disposição não são muitos, mas com talento, imaginação e boa vontade tudo se consegue e esta produção é prova disso.

Não diria que as canções, da autoria de Gary Barlow (do grupo Take That) e Tim Firth são inesquecíveis, mas servem muito bem a história e soam bem ao ouvido, defendidas com alma pelo elenco.

O elenco de ilustres desconhecidos do grande público vive os personagens com autenticidade e emoção. Atrevo-me a dizer que aquele grupo de amigas no palco, o são na vida real, tal é a cumplicidade e empatia entre elas. Por razões óbvias, o destaque vai para Maria Mascarenhas como Annie (a viúva) e Mariana Granate como Chris (a sua melhor amiga); ambas se entregam com alma aos seus papéis, levando-nos com elas na sua luta pelo que acham que é correcto. Não posso deixar de destacar Maria João Granate como a engraçada e atrevidota mais “crescida” do grupo. As outras “meninas” são Ana Stilwell como a “sex bomb”, Joana Lencart como a mais púdica do grupo e Quica Granate como a mãe solteira de um teenager. E claro que tinha que haver uma “má da fita”, interpretada muito bem por Ana Granate.

Como Clarkey (o marido que falece), Samuel Cardita tem uma presença simpática e forte que, apesar de não ter muito tempo de palco, se faz sentir durante toda a peça. Na parte masculina, destaque também para Nuno Baptista como o compreensivo marido de Chris. Por fim uma palavra para o simpático trio de jovens que representam de forma credível os adolescentes da história – Mateus Whytton Borges, Cláudia Rosa e Tomás Mourato.

Duvido que alguém do público não tenha sido directa ou indirectamente confrontado com um caso de cancro, essa maldita doença cada vez mais na moda, bem como com a perda de alguém querido (isto pode parecer ridículo, mas no meu caso foi um gato que eu adorava). Talvez por isso é impossível ficar indiferente à história destas mulheres. Emoção é aqui a palavra do dia e é sem vergonha que nos envolvemos emocionalmente com o que se passa no palco e deixamos as lágrimas afluírem aos nossos olhos. Teatro é isto mesmo, emoção e uma sensação final de “feel good”. Parabéns a todos e mal posso esperar para ver as próximas produções: MAUS HÁBITOS e AMÉLIE. 

Elenco: Mariana Granate, Maria Mascarenhas, Quica Granate, Maria João Granate, Ana Stilwell, Joana Lencart, Ana Granate, Samuel Cardita, Nuno Baptista, Tiago Marques, Pepe Feu, Cátia Pimpista, Inês Vieira Mendes, Renata Belo, Miguel Pina, Mateus Whytton Borges, Tomás Mourato, Cláudia Rosa

Equipa Criativa: Música: Gary Barlow • Texto e Letras: Tim Firth • Tradução e Adaptação: Ana Stillwell, André Lourenço, Maria Mascarenhas e Raquel Pereira • Encenação: André Lourenço e Raquel Pereira • Direção Vocal: André Lourenço • Coreografia/Movimento: Sofia Loureiro • Cenografia: Nádia Gama e Maria Mascarenhas • Confeção de Adereços e Cenografia: Leonor Bivar, Maria Mascarenhas, Nuno Baptista e Lara Rocha • Direção de Cena: Lara Rocha • Técnico de Som: Eduardo Mota • Técnico de Luz: Sofia Costa • Desenho de Luz: Paulo Santos • Desenho de Som: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical, João Paes Prata,Lda

Fotos: Telma Meira








terça-feira, 26 de maio de 2026

CLUBE DOS POETAS MORTOS de Tom Schulman

Em Janeiro de 1990 chegou aos nossos cinemas o filme O CLUBE DOS POETAS MORTOS. Nele, um professor (interpretado por Robin Williams) regressa ao colégio interno onde foi aluno e tenta abrir a mente dos seus alunos através da poesia e da literatura, para que estes aprendam a sonhar e tenham coragem de ser eles próprios, algo que não agrada à classe dirigente da escola.

Confesso que na altura não fiquei apaixonado pelo filme, na realidade saí bem revoltado da sala. Acho que, uma vez que o actor era Robin Williams, ia à espera de uma comédia e fiquei decepcionado. Talvez por isso, para mim esta produção teatral é melhor que o filme. O facto de estar mais velho, também ajuda a ver a história por outra perspectiva. E o tema principal é tão relevante, ter coragem para sermos nós próprios e enfrentar os “velhos do Restelo”. Mas voltei a sentir a revolta dentro de mim, pois as classes opressoras continuam a procurar “bodes expiatórios” para tentarem limpar as suas consciências.

A encenação de Hélder Gamboa é sóbria, elegante e eficaz. Não há distracções em palco, apenas um grupo de personagens que capta a nossa atenção do princípio ao fim, criando empatia connosco e uma forte antipatia para com os “velhos do Restelo”. As cenas da gruta estão brilhantemente encenadas, com um cúmplice jogo de luzes de lanternas, que contrasta com a austeridade da sala de aulas.

Como fugir da sombra do sonhador, divertido e simpático Robin Williams? Acredito que esse foi o grande desafio de Diogo Infante ao interpretar o papel do professor; e ele fá-lo com o seu jeito habitual, com talento, seriedade e algum humor. Virgílio Castelo convence como o odioso director e Diogo Mesquita, num papel muito secundário, brilha como o autoritário pai de Neil.

Mas o espectáculo pertence por direito aos talentosos jovens que dão vida aos alunos. Vão todos muito bem, com normal destaque para alguns deles: Dany Duarte é o apaixonado Knox, Diogo Fernandes é divertido como o irreverente Charlie, João Maria Cardoso dá comicidade ao sonso e irritante Cameron, João Sá Nogueira foi para mim uma revelação como o introvertido Anderson. Uma última palavra para o extraordinário Rui Pedro Silva (BROKEBACK MOUNTAIN), que nos dá um Neil cheio de vida, de sonhos e também de medo. Todos eles, (Rafael Leitão, Jaime Pinto Gamboa e Nuno Represas completam o jovem elenco) demonstram que estamos perante uma belíssima nova geração de actores. Parabéns!

Por tudo isto aconselho uma visita a este CLUBE, pois não se vão arrepender. Mas ouvi dizer que as inscrições não são fáceis de conseguir.

Elenco: Dany Duarte, Diogo Infante, Diogo Fernandes, Diogo Mesquita, Jaime Pinto Gamboa, João Maria Cardoso, João Sá Nogueira, Nuno Represas, Rafael Leitão, Rui Pedro Silva e Virgílio Castelo

Equipa Criativa: Encenação: Hélder Gamboa • Texto: Tom Schulman • Cenografia: Fernando Ribeiro • Adereços: Luís Martins e Rafaela Almeida • Figurinos: Maria Gonzaga • Desenho de Luz: Nuno Meira • Sonoplastia: Luís Lucena • Cabelos: Rui Canento • Assistência de encenação:  Ângela Pinto e Pedro Maralma • Produção – Tenda Produções: Ana Delgado • Produção executiva – Tenda Produções: Miguel Manaças • Comunicação – Tenda Produções: Carlos Félix • Fotografia cartaz e spot TV: Pedro Macedo – Framed Photos • Coprodução: Teatro da Trindade INATEL e Tenda Produções

Fotos: Alípio Padilha