quinta-feira, 4 de junho de 2026

CALENDAR GIRLS – O MUSICAL de Tim Firth

Há mais de 20 anos, estreou nos nossos cinemas o filme MENINAS DE CALENDÁRIO com Helen Mirren e Julie Walters à frente do elenco. Anos mais tarde, em 2015, foi adaptado ao teatro como um musical e teve a sua estreia em Londres em 2017. Agora esse musical chega até nós numa adaptação portuguesa nas mãos competentes da Stagedoor (uma escola de teatro musical em Lisboa).

Baseado numa história verídica, fala-nos de um grupo de mulheres que, contra tudo e todos, decidem posar nuas para um calendário, cujas vendas revertem para a compra de um sofá. Eu explico, o marido de uma delas (Annie) morre com um cancro e ela apercebeu-se de quão desconfortável era a sala de espera do hospital onde aguardava pelo seu marido; assim, em honra dele, decidem avançar com este projecto de caridade.

Eu sou um mero espectador que gosta de teatro, principalmente de teatro Musical. Pessoalmente não distingo entre teatro profissional e teatro amador, mas sim entre teatro bom e teatro menos bom. Tudo isto para dizer que esta produção que faz parte do currículo escolar da Stagedoor, pode ser considerada como teatro amador, mas de amador não tem nada e é muito boa. Só lamento que a sua carreira tenha sido limitada a quatro sessões.

Tal como já havia acontecido com outra produção da produção da Stagedoor, (AS BRUXAS DE EASTWICK), André Lourenço (desta vez com a ajuda de Raquel Pereira) continua a demonstrar ser um encenador de talento, despretensioso e com o coração no sítio certo. Demonstrando um grande carinho pelos actores e seus personagens, dão-nos aqui uma comédia dramática muito emocional, evitando, com humor, cair na lamechice a que o tema se propicia. Os meios à sua disposição não são muitos, mas com talento, imaginação e boa vontade tudo se consegue e esta produção é prova disso.

Não diria que as canções, da autoria de Gary Barlow (do grupo Take That) e Tim Firth são inesquecíveis, mas servem muito bem a história e soam bem ao ouvido, defendidas com alma pelo elenco.

O elenco de ilustres desconhecidos do grande público vive os personagens com autenticidade e emoção. Atrevo-me a dizer que aquele grupo de amigas no palco, o são na vida real, tal é a cumplicidade e empatia entre elas. Por razões óbvias, o destaque vai para Maria Mascarenhas como Annie (a viúva) e Mariana Granate como Chris (a sua melhor amiga); ambas se entregam com alma aos seus papéis, levando-nos com elas na sua luta pelo que acham que é correcto. Não posso deixar de destacar Maria João Granate como a engraçada e atrevidota mais “crescida” do grupo. As outras “meninas” são Ana Stilwell como a “sex bomb”, Joana Lencart como a mais púdica do grupo e Quica Granate como a mãe solteira de um teenager. E claro que tinha que haver uma “má da fita”, interpretada muito bem por Ana Granate.

Como Clarkey (o marido que falece), Samuel Cardita tem uma presença simpática e forte que, apesar de não ter muito tempo de palco, se faz sentir durante toda a peça. Na parte masculina, destaque também para Nuno Baptista como o compreensivo marido de Chris. Por fim uma palavra para o simpático trio de jovens que representam de forma credível os adolescentes da história – Mateus Whytton Borges, Cláudia Rosa e Tomás Mourato.

Duvido que alguém do público não tenha sido directa ou indirectamente confrontado com um caso de cancro, essa maldita doença cada vez mais na moda, bem como com a perda de alguém querido (isto pode parecer ridículo, mas no meu caso foi um gato que eu adorava). Talvez por isso é impossível ficar indiferente à história destas mulheres. Emoção é aqui a palavra do dia e é sem vergonha que nos envolvemos emocionalmente com o que se passa no palco e deixamos as lágrimas afluírem aos nossos olhos. Teatro é isto mesmo, emoção e uma sensação final de “feel good”. Parabéns a todos e mal posso esperar para ver as próximas produções: MAUS HÁBITOS e AMÉLIE. 

Elenco: Mariana Granate, Maria Mascarenhas, Quica Granate, Maria João Granate, Ana Stilwell, Joana Lencart, Ana Granate, Samuel Cardita, Nuno Baptista, Tiago Marques, Pepe Feu, Cátia Pimpista, Inês Vieira Mendes, Renata Belo, Miguel Pina, Mateus Whytton Borges, Tomás Mourato, Cláudia Rosa

Equipa Criativa: Música: Gary Barlow • Texto e Letras: Tim Firth • Tradução e Adaptação: Ana Stillwell, André Lourenço, Maria Mascarenhas e Raquel Pereira • Encenação: André Lourenço e Raquel Pereira • Direção Vocal: André Lourenço • Coreografia/Movimento: Sofia Loureiro • Cenografia: Nádia Gama e Maria Mascarenhas • Confeção de Adereços e Cenografia: Leonor Bivar, Maria Mascarenhas, Nuno Baptista e Lara Rocha • Direção de Cena: Lara Rocha • Técnico de Som: Eduardo Mota • Técnico de Luz: Sofia Costa • Desenho de Luz: Paulo Santos • Desenho de Som: Gonçalo Carlos • Produção: Stagedoor – Escola de Teatro Musical, João Paes Prata,Lda

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