segunda-feira, 6 de julho de 2026

CARRIE – O MUSICAL de Lawrence D. Cohen

A produção original da Broadway estreou em 1988 e foi um fracasso tão grande que depressa se transformou num musical de culto. Antes e depois de CARRIE houve muitos e piores fracassos, mas este ficou na história ao ponto de ter servido de título ao livro NOT SINCE CARRIE – 40 YEARS OF BROADWAY MUSICAL FLOPS de Ken Mandelbaum, cuja leitura é obrigatória para qualquer amante de Teatro Musical.

A adaptação cinematográfica da novela CARRIE, de Stephen King, tinha sido um sucesso e não é de estranhar que alguém achasse que podia dar um bom musical de teatro. O argumentista do filme, Lawrence D. Cohen, adaptou a história ao palco; as canções eram da autoria da dupla Michael Gore & Dean Pitchford, que tinham tido um grande sucesso com as suas canções para o filme FAME; para a coreografia, escolheram Debbie Allen, estrela do FAME e, num momento inspirado de “casting”, a actriz Betty Buckley, que fazia da professora no filme, era agora a mãe fanática de Carrie. Apesar disto tudo, os críticos não gostaram, o público não comprou bilhetes e o musical fechou as suas portas ao fim de 21 representações.

Sendo apaixonado por musicais, bem como um fâ do filme de Brian De Palma, que vi numa sessão da meia-noite há muitos anos, tive sempre uma grande curiosidade em relação a este musical e, graças à escola Primeiro Acto, pude finalmente realizar esse meu sonho. 

Ao contrário do filme, a acção do musical existe dentro da mente traumatizada de Sue, que é obrigada a contar várias vezes os acontecimentos que levaram à tragédia no “prom” (baile de finalistas).

Carrie é uma adolescente tímida e inocente, que vive subjugada pela sua religiosamente fanática mãe e que é alvo de gozo pelas suas colegas. No dia em que lhe aparece pela primeira vez a menstruação, algo muda dentro dela e acaba por descobrir que tem um poder especial, telecinesia (“capacidade de mover ou manipular objetos e sistemas físicos usando apenas a mente, sem contacto físico ou interação mecânica”). Uma das suas colegas, Sue, arrepende-se de ter gozado com ela e convence o seu namorado a convidar a Carrie para o “prom”, não prevendo as consequências de tal acto.

Quando entrei na sala de teatro e comecei a ouvir a fantástica banda sonora do filme, da autoria de Pino Donaggio, percebi logo que estava nas mãos de alguém que tinha respeito pelo filme. O lado sobrenatural da história é, por razões práticas, mais contido aqui, mas eficaz na sua simplicidade e, no clímax, pela entrega física do elenco. Não esperem grandes números musicais, pois a dança não é um componente forte nesta produção (acredito que no fracasso original, Debbie Allen deve ter posto o elenco a mexer-se bem). À encenadora Sofia de Castro, interessa-lhe mais o lado humano da história, tornando este musical numa experiência por vezes intimista e, sem dúvida, mais realista que o filme. Julgo que um dos problemas deste musical são as canções, pois com excepção do belíssimo “Um Inocente Amor” ("Unsuspecting Hearts"), cantado por Miss Gardner (a professora de ginástica) e por Carrie, o resto não é muito interessante; já tinha percebido isso quando ouvi a gravação do elenco da produção Off-Broadway de 2012.

Não é fácil alguém conseguir fazer esquecer Sissy Spacek no papel, mas Rafaela Ribeiro depressa conquista a nossa simpatia como a inocente e carente Carrie, transformando-se diante dos nossos olhos na “princesa” feliz e corajosa que vai ao “prom”. Tudo isto, enquanto nos presenteia como uma voz forte e bonita. No papel da mãe, Sofia de Castro não é a personagem “over-acting” que Piper Laurie nos dava no filme, mas sim uma mulher desiludida com a vida, que se entregou a Deus e que quer proteger a sua filha dos males do mundo; a sua voz operática é perfeita para o personagem e ela está fantástica.

Tive pena que Bruna L. Rocha, como Miss Gardner, não cantasse mais, mas canta a melhor canção de todas e convence na sua empatia por Carrie. Pessoalmente, achei que Carolina Ferreira como Sue e Tomás Esteves como o seu namorado, apesar de talentosos, eram demasiado doces nos seus papéis. Por outro lado, Inês de Castro é uma verdadeira cabra como Chris, arrogante, egoísta e incapaz de sentir empatia seja por quem for; quando está em palco é difícil desviarmos o olhar dela. A seu lado, Tiago Ferreira é o perfeito “bronco”. O restante elenco entrega-se com energia aos seus papéis.

Para terminar este longo comentário, só mais uma coisinha. Só recentemente descobri o fascinante mundo dos musicais produzidos pelas escolas de teatro musical de Lisboa e tem sido uma agradável surpresa. Os meus parabéns a todas e, neste caso, principalmente à Primeiro Acto.

Elenco: Rafaela Ribeiro, Sofia de Castro, Carolina Ferreira, Tomás Esteves, Inês de Castro, Tiago Ferreira, Bruna L. Rocha, Gonçalo Elias, Bekas Duarte, Madalena Menezes, Mafalda Baptista, Gil Raposo, Rafael Costa, Rodrigo Brito, Carolina Torrinha, Diogo Orlindo, Mafalda Mateus, Mariana Soares, Ava Miguel, Matilde Pichstein, Siddártha Barbosa, Simão Pedro, Pedro Pichstein, Andreia Soares, Clara Compõete, Pedro Santos, Joana Bento, Tiago Vicente, Luísa Pereira




Sem comentários:

Enviar um comentário