A adaptação cinematográfica da novela CARRIE, de Stephen King, tinha sido um sucesso e não é de estranhar que alguém achasse que podia dar um bom musical de teatro. O argumentista do filme, Lawrence D. Cohen, adaptou a história ao palco; as canções eram da autoria da dupla Michael Gore & Dean Pitchford, que tinham tido um grande sucesso com as suas canções para o filme FAME; para a coreografia, escolheram Debbie Allen, estrela do FAME e, num momento inspirado de “casting”, a actriz Betty Buckley, que fazia da professora no filme, era agora a mãe fanática de Carrie. Apesar disto tudo, os críticos não gostaram, o público não comprou bilhetes e o musical fechou as suas portas ao fim de 21 representações.
Sendo apaixonado por musicais, bem como um fâ do filme de Brian De Palma, que vi numa sessão da meia-noite há muitos anos, tive sempre uma grande curiosidade em relação a este musical e, graças à escola Primeiro Acto, pude finalmente realizar esse meu sonho.
Ao contrário do filme, a acção do musical existe dentro da mente traumatizada de Sue, que é obrigada a contar várias vezes os acontecimentos que levaram à tragédia no “prom” (baile de finalistas).
Quando entrei na sala de teatro e comecei a ouvir a fantástica banda sonora do filme, da autoria de Pino Donaggio, percebi logo que estava nas mãos de alguém que tinha respeito pelo filme. O lado sobrenatural da história é, por razões práticas, mais contido aqui, mas eficaz na sua simplicidade e, no clímax, pela entrega física do elenco. Não esperem grandes números musicais, pois a dança não é um componente forte nesta produção (acredito que no fracasso original, Debbie Allen deve ter posto o elenco a mexer-se bem). À encenadora Sofia de Castro, interessa-lhe mais o lado humano da história, tornando este musical numa experiência por vezes intimista e, sem dúvida, mais realista que o filme. Julgo que um dos problemas deste musical são as canções, pois com excepção do belíssimo “Um Inocente Amor” ("Unsuspecting Hearts"), cantado por Miss Gardner (a professora de ginástica) e por Carrie, o resto não é muito interessante; já tinha percebido isso quando ouvi a gravação do elenco da produção Off-Broadway de 2012.
Não é fácil alguém conseguir fazer esquecer Sissy Spacek no papel, mas Rafaela Ribeiro depressa conquista a nossa simpatia como a inocente e carente Carrie, transformando-se diante dos nossos olhos na “princesa” feliz e corajosa que vai ao “prom”. Tudo isto, enquanto nos presenteia como uma voz forte e bonita. No papel da mãe, Sofia de Castro não é a personagem “over-acting” que Piper Laurie nos dava no filme, mas sim uma mulher desiludida com a vida, que se entregou a Deus e que quer proteger a sua filha dos males do mundo; a sua voz operática é perfeita para o personagem e ela está fantástica.
Para terminar este longo comentário, só mais uma coisinha. Só recentemente descobri o fascinante mundo dos musicais produzidos pelas escolas de teatro musical de Lisboa e tem sido uma agradável surpresa. Os meus parabéns a todas e, neste caso, principalmente à Primeiro Acto.
Elenco: Rafaela Ribeiro, Sofia de Castro, Carolina Ferreira, Tomás Esteves, Inês de Castro, Tiago Ferreira, Bruna L. Rocha, Gonçalo Elias, Bekas Duarte, Madalena Menezes, Mafalda Baptista, Gil Raposo, Rafael Costa, Rodrigo Brito, Carolina Torrinha, Diogo Orlindo, Mafalda Mateus, Mariana Soares, Ava Miguel, Matilde Pichstein, Siddártha Barbosa, Simão Pedro, Pedro Pichstein, Andreia Soares, Clara Compõete, Pedro Santos, Joana Bento, Tiago Vicente, Luísa Pereira







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