terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

AVENIDA Q de Jeff Whitty

A História: Luís, um jovem recentemente licenciado, chega à Avenida Q à procura de um apartamento e de um sonho. Aí, conhece Marta Monstra e os dois apaixonam-se, mas uma ordinária de nome Paula Porca ameaça a sua relação. Entretanto, dois velhos amigos que vivem juntos têm problemas, pois quando Félix, um gay no armário, descobre que o seu amigo Joca sabe o seu segredo põe-o na rua. Nesta avenida vivem também a turca Maria, que é noiva de um desempregado que sonha em ser um "stand-up" cómico, o misterioso Trekkie Monstro e o outrora famoso Pequeno Saúl.

O Elenco: Antes de mais, parabéns a todo o elenco pelo excelente trabalho e por me terem proporcionado uma excelente noite de teatro e alegria. Acreditem, todos me surpreenderam pela positiva, revelando um perfeito “comic timing” e excelentes dotes vocais. São todos tão bons que parece injusto destacar alguns, por isso vou falar um bocadinho de todos. Nos papéis principais, Ana Cloe e Samuel Alves são excelentes e partilham uma química que anima os seus bonecos de forma intensa e real. Como Paula Porca, Inês Aires Pereira é deliciosamente ordinária e quando está em palco é difícil não olhar para ela, uma espécie de uma sexy Jessica Rabbit, mas muito badalhoca; adorei a forma como o cabelo de Inês e de Paula combinam tão bem. Manuel Moreira é muito divertido como Félix e, juntamente com Inês, dá vida aos terríveis ursinhos. Rodrigo Saraiva empresta o seu enorme talento e a sua voz grossa e rouca ao Trekkie Monstro e o seu lado doce a Joca. Gabriela Barros manda a casa abaixo com a sua belíssima voz operática no papel de Maria. Como o Pequeno, mas agora crescido, Saúl, Rui Maria Pêgo faz-nos acreditar que a sua vida “é uma merda” e como o noivo de Maria, Diogo Valsassina consegue convencer-nos que não usa cuecas e que não nasceu para “stand-up comedy”. A verdade é que só tenho coisas boas a dizer sobre todos, por isso vão é vê-los, pois eles merecem a vossa atenção e o vosso carinho.

A Peça: Este musical estreou Off-Broadway em Março de 2003 e em Julho do mesmo ano foi transferido para um teatro da Broadway com grande sucesso. Quando chegou a hora dos prémios Tony (os Óscares da Broadway), ganhou Melhor Musical, Melhor Argumento e Melhor Música. Tudo prémios que foram mais que merecidos.

Tive a sorte de ver a produção da Broadway em 2004 e adorei. Quando li que ia estrear uma produção portuguesa deste musical, confesso que fiquei apreensivo e foi com algumas reservas que me dirigi ao Teatro da Trindade no passado sábado, mas também com algum excitamento e muita curiosidade.

Mas que bela surpresa eu tive! Não só adorei a produção, como achei que está ao nível da que vi na Broadway; atrevo-me até a dizer que gostei mais desta. A adaptação da autoria de Henrique Dias e Rui Melo (que também dirige a peça) é brilhante, conseguindo captar o espírito irreverente e policticamente incorrecto do original da autoria de Jeff Whitty e transportá-lo para a realidade portuguesa, por vezes com resultados geniais. Em termos de encenação está muito próxima do original, o que quer dizer que Rui Melo tem em si tudo o que o é preciso para dirigir um musical de sucesso, imprimindo o ritmo certo à peça e dirigindo o seu elenco com mão de mestre.

É impossível resistir aos encantos das marionetas, que são tão humanas quanto os actores que lhes dão vida. A empatia entre eles e o público é imediata e por minha vontade teria ficado horas sem fim na sua companhia.

Para os mais distraídos, para não irem ao engano, isto é uma espécie de uma versão para adultos da RUA SÉSAMO ou d’OS MARRETAS, onde tudo pode acontecer. Apesar de apelar à criança atrevida que há em todos nós, não é aconselhável a crianças muito pequenas. A linguagem é deliciosamente adulta, por vezes hilariante e se há coisa que não falta é sexo... Como alguém diz e muito bem, o sexo vende sempre!

Quanto às canções, da autoria de Robert Lopez e Jeff Marx, são das mais cómicas que foram escritas para um musical e têm uma melodia que as torna apetecíveis. Ficam facilmente no ouvido e se saírem do teatro a trautearem uma ou duas não se admirem. É bom sinal!

No final da sessão a que assisti, o público aplaudiu de pé e pelos sorrisos que vi, os responsáveis por esta produção têm um grande e merecido êxito nas suas mãos. O espectáculo vai estar em exibição até dia 2 de Abril no Trindade e aconselho a reservarem já os vossos bilhetes, para depois não se arrependerem. Pessoalmente, estou seriamente a pensar voltar lá.

Acreditem, vão viver cerca 90 minutos de pura diversão e nunca irão esquecer este AVENIDA Q e as coloridas e irreverentes personagens que por lá vivem! Só mais uma coisa, não se esqueçam que isto é um musical e é suposto aplaudir-se no final de cada canção. Vão lá fazer uma visita a esta AVENIDA Q e depois digam-me o que acharam. E como “tudo nesta vida é só para já” não percam e vão já reservar os vossos bilhetes. A não perder!

Classificação: 9 (de 1 a 10) / Fotos de Paulo Sabino e outros


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

QUASE NORMAL de Brian Yorkey

A História: Diana é uma mãe de família que sofre de um grave caso de bipolaridade. A sua condição afecta todos os membros da família e quando se sujeita a um tratamento mais radical as coisas complicam-se para todos.

O Elenco: No papel de Diana, Lúcia Moniz surpreendeu-me pela positiva. Já a tinha visto como Maria Von Trapp na MÚSICA DO CORAÇÃO, onde ia lindamente, mas aqui revela-se uma actriz de excelentes recursos, mudando facilmente do registo dramático para o cómico, sempre comandando a nossa atenção. Ela é simplesmente fantástica! Como o seu marido, um homem que se faz forte mas que sofre em silêncio, Henrique Feist mantém-se no seu habitual registo dramático. A jovem Mariana Pacheco dá alma e raiva ao papel da filha e, como o seu namorado, André Lourenço dá ao seu personagem uma convincente doçura e inocência, acompanhadas de uma adequada dose de loucura. Como os vários médicos, Diogo Leite tem ar de estrela de rock e uma presença forte em palco. Uma última palavra para o excelente Valter Mira como o filho de Diana; graças ao facto de ser muito expressivo, facilmente cria empatia com o público; isto já para não dizer que é também muito giro. Todos eles são também excelentes cantores, com destaque óbvio para Moniz e Mira.

A Peça: Não se assustem com o tema deste musical, pois apesar de ser muito dramático não é aborrecido nem pesado. Graças à excelente encenação de Henrique Feist, o espectáculo flui sem pontos mortos, num crescendo emotivo que atinge o seu clímax numa comovente cena entre mãe e filha (aqui não consegui conter as lágrimas). Não vi a produção da Broadway, por isso não posso fazer comparações e não sei que apontamentos pessoais Feist deu a este musical, mas gostei particularmente da bonita valsa dançada por mãe e filho, a forma como Diana aparece enquanto está na maca do hospital e a presença constante do filho. Confesso que, como amante que sou dos musicais mais tradicionais, a música rock de autoria de Tom Kitt não é definitivamente o meu género, mas funciona bem no contexto da peça e isso é que interessa. Voltando a Henrique Feist, dirige o seu elenco com mão de mestre, sem medo de poder ser ofuscado pelos seus colegas actores. É verdade, a peça não precisa das canções para viver, mas estas dão-lhe outra dimensão. Recomendo sem reservas a quem goste de bom teatro, seja este musical ou não. Por isso vão até ao Casino do Estoril e deixem-se arrebatar por Lúcia Moniz e companhia!

Classificação: 8 (de 1 a 10) / Fotos de Joice Fernandes © canelaehortela.com



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

LISBON PLAYERS OCTOBER 2016: COOKING WITH ELVIS de Lee Hall

A História: Após um acidente, um pai de família e imitador do Elvis Presley, fica paraplégico. A sua esposa, uma mulher de grande “drive” sexual, arranja um amante jovem. Entretanto, a sua filha adolescente vive obcecada com a comida. As coisas complicam-se quando esta e o amante da mãe se enrolam.

O Elenco: Já há muito tempo que sei que Elizabeth Bochmann é uma extraordinária actriz, de grande versatilidade, que salta do drama para a comédia sem qualquer esforço. Aqui, no papel da filha, volta a brilhar e a roubar a atenção com a sua naturalidade e talento. No papel da mãe, Amanda Booth é sexualmente patética, um poço de sexualidade desajustado da sua idade e desesperada por se sentir viva. Simon Mount é o pai, que só ganha vida enquanto imitador de Elvis e que se diverte a interpretar esse personagem. Por fim, temos Eduardo Ribeiro, um actor que mal conhecia, que se revela um notável comediante no papel do desajustado, simpático, sexy e depravado amante.

A Peça: Do autor de BILLY ELLIOT, Lee Hall, chega ao The Lisbon Players esta comédia negra, que fala de coisas sérias com humor e sem julgamentos morais.
Tal como já acontecia com KVETCH, Robert Taylor revela-se um excelente director de actores e sabe como tirar o melhor partido das situações criadas pela peça. As gargalhadas que provoca são por vezes incómodas (por exemplo a cena da masturbação), quase nos fazendo sentir mal por acharmos piada a algumas das coisas. Pessoalmente, gosto muito disso!
Não sou grande fã do Elvis Presley e acha que os seus números cortam o ritmo da peça, quase como se não fizessem parte da mesma. No fundo pertencem ao mundo imaginário do pai paraplégico. Tenho que confessar que só percebi que a filha era menor de idade a meio da peça, e este facto dá outra dimensão a essa personagem e à história.
Recomendo sem reservas a quem aprecie comédias negras, divertidas e incómodas!

Classificação: 7 (de 1 a 10)


domingo, 7 de fevereiro de 2016

RUA DOS CAETANOS Nº 23 de Woody Allen

A História: A psicanalista Pilar (Marta Queirós) acaba de ser abandonada pelo seu marido Afonso (Frederico Coutinho) e descobre que ele lhe era infiel com a sua amiga Carlota (Mónica Talina). O marido desta, Lourenço (Gonçalo Cabral), não sabia de nada e fica desesperado.

O Elenco: Quatro bons actores, quatro personagens que não podiam ser mais diferentes. Marta Queirós tem as melhores “tiradas” do texto e sabe muito bem como usá-las, num misto de louca e cabra enraivecida. Mónica Talina parece estar desconfortável como a tímida Carlota, mas depressa percebemos que ela não é quem aparenta. Gonçalo Cabral convence como o descontrolado maníaco-depressivo Lourenço e, sem querer falar de mais, revela-se um actor de muitas facetas. Por fim, Frederico Coutinho dá-nos um Afonso engatatão, em crise de meia-idade e apaixonado.

A Peça: Tenho que confessar que quando a peça começou, com Pilar a rir exageradamente que nem uma louca, temi o pior. Mas os meus receios depressa se dissiparam e nem dei pelo tempo passar. Num ambiente que me fez recordar o Teatro Rápido, connosco metidos praticamente no meio da acção, o encenador Bruno Cochat tira o melhor partido do espaço cénico e dos seus actores. Pode-se dizer que ele quase que abusa deles fisicamente, mas eles “aguentam-se à bronca” fazendo-nos rir. Ele consegue criar o caos em cena e depois controlá-lo. Cochat consegue também algo de raro, surpreender-me. Primeiro com Pilar a tocar maravilhosamente o piano e depois com... Bem, revelar o que se passa nos minutos finais desta divertida peça seria um erro da minha parte. Deixem-me só rematar dizendo que  a adaptação do texto de Woody Allen está bem conseguida e é plena de graça. Se gostam de rir e de ser surpreendidos marquem na vossa agenda uma visita ao nº 23 da Rua dos Caetanos, ali ao Bairro Alto.

Classificação: 7 (de 1 a 10) / Fotos de Tiago Figueiredo - www.tiagofigueiredo.com


sábado, 6 de fevereiro de 2016

UM ANO SEM TI de João Ascenso

A História: Faz um ano que Henrique morreu (Pedro Barroso). Mónica (Raquel Rocha Vieira), a sua depressiva viúva, parece não conseguir ultrapassar a sua perda. Jorge (Ricardo Lérias) é o amigo gay que toma conta de Mónica de forma quase doentia. Luísa (Isabel Guerreiro) é uma amiga que acha que é tempo de a vida de todos eles avançar.

O Elenco: Um fantástico quarteto de actores dá vida às personagens reais que habitam a história. Pedro Barroso, como o falecido Henrique, tem uma presença forte, dramática e constante que assombra todos os cantos do palco. Raquel Rocha Vieira dá, com naturalidade, à sua Mónica toda a fragilidade que ela necessita. No papel do doce, irritante e super prestável Jorge, Ricardo Lérias revela-se um actor capaz de expressar toda uma gama de emoções com um simples olhar ou sorriso (a cena em que ele recorda um telefonema de Henrique é disso prova). Como Luísa, Isabel Guerreiro é um verdadeiro furacão de talento, que leva tudo e todos atrás; ela é a convincente lufada de ar fresco que Mónica necessita.

A Peça: Há alturas em que gostava de saber escrever melhor para poder fazer justiça às peças ou filmes que vejo, esta é uma dessas vezes. Não posso dizer que o texto seja brilhante, mas é tão bom e tem uma qualidade “tu cá, tu lá” que o torna acessível a todos e que eu adoro. Como de costume, João Ascenso escreve sobre o quotidiano com graça, sensibilidade e emoção; qualidades estas que,  juntamente com um grande carinho pelos seus personagens, ele consegue encenar de forma simples. A facilidade com que ele nos capta a atenção e a empatia que as suas personagens criam connosco é gratificante. A história parece mais simples do que é, isso é outra das qualidades de Ascenso, que nunca pára de me surpreender. Uma coisa eu sei, quando eu for grande quero saber escrever como o João Ascenso! Uma peça a não perder e que aconselho sem reservas!

Classificação: 8 (de 1 a 10)

domingo, 31 de janeiro de 2016

LISBON PLAYERS JANUARY 2016: THEATRICAL DIGS, OUTDOOR PLEASURES and DOGGIES by Jean McConnell

As histórias: THEATRICAL DIGS – O descanso à beira-mar de uma mulher de idade avançada é interrompido pela presença de uma jovem e convencida actriz. OUTDOOR PLEASURES – Uma mulher leva a sua tia a assistir a uma peça de Shakespeare ao ar livre, mas a sua tia não está muito interessada na peça. DOGGIES – Uma “tia” e a sua fina cadelinha San San travam conhecimento com uma mulher vulgar e o seu cão rafeiro, Robbie.

Os Actores: Estas três divertidas mini-peças de autoria de Jean McConnell servem de “alimento” a um trio de excelentes comediantes. A mais jovem das três, Elizabeth Bochmann, continua a revelar-se um verdadeiro camaleão, capaz de interpretar qualquer tipo de personagem e torná-la real; neste caso vai tão bem como a “snobenta” e vaidosa actriz,  como com a chata e pretensiosa sobrinha. Celia Williams é uma senhora actriz que, tal como Helen Mirren, nunca perde o seu porte altivo, mas é sempre convincente nas suas personagens, tornando-as reais. Quanto a Amanda Booth, tem um sentido cómico muito apurado e consegue criar uma empatia imediata com o público. Juntas, divertem-se e divertem-nos com as suas personagens.

As Peças: Cada uma das três actrizes dirigiu uma das mini-peças e fizeram-no em sintonia de estilo. Uma direcção simples, com um guarda-roupa que define bem as personagens, sem grande cenário, onde brilham as actrizes e os engraçados textos. A minha preferida foi DOGGIES, onde os canitos quase roubam a atenção das actrizes. Confesso que achei que os intervalos entre cada uma das peças cortavam um bocado o ritmo da noite, mas percebo a necessidade dos mesmos. Sem dúvida um serão divertido, na companhia de um excelente trio de actrizes e de onde saímos bem dispostos.

Classificação: 6 (de 1 a 10)



domingo, 11 de outubro de 2015

LISBON PLAYERS OCTOBER 2015: BLACK COMEDY de Peter Shaffer

A História: Brindsley é um jovem e pobre escultor que, na companhia da sua noiva, espera a visita de um coleccionador de arte milionário, bem como do pai da sua noiva. A fim de os impressionar decidiu “desviar” algumas peças de mobiliário do vizinho do lado, que está fora. Mas à última hora falta a luz, a velha solitária do piso de cima junta-se a eles, o vizinho regressa mais cedo do que ele esperava e a sua amante decide visitá-lo também.

O Melhor: A ideia genial em como é usada a iluminação, que só por si se torna não só numas das personagens da peça, mas também a mais importante de todas. A ideia já vem da encenação original dos anos 60, mas aqui é brilhantemente usada.

O Pior: Nada a declarar!

Os Actores: Sabe muito bem ver um elenco de verdadeiros profissionais em palco e em perfeita sintonia com o espírito da peça. A química entre todos é evidente e o nível de interpretações não podia ser mais equilibrado. No papel de Brindsley, o jovem Tomas Anderson revela-se um excelente comediante e, como a sua noiva, Mafalda Pereira é uma perfeita menina mimada e de boas famílias. Celia Williams diverte-se imenso como a velha vizinha e Rui Vasco convence como o austero pai da noiva. Com um penetrante olhar azul, Stephen Bull é delicioso como o vizinho do lado. Lenny Falcon é o gozado electricista e António Carlos Andrade tem uma curtida e fugaz aparição como o milionário. Uma última palavra para a brilhante Elizabeth Bochmann como a amante, um papel criado na produção original por Maggie Smith; esta jovem actriz tem aquilo a que eu chamo “star quality” e quando ela está em palco é difícil desviarmos a atenção dela. A sua Cleo é gozona, provocadora, um pouco ordinária e sexy, Elizabeth é tudo isso e muito mais. Parabéns a todos!

A Peça: Na sua estreia como encenadora, Bárbara Monteiro revela-se uma excelente directora de actores, bem como alguém capaz de criar e controlar o divertido caos que se cria em palco. Não há pontos mortos, a comédia flui num ritmo perfeito e o resultado final é uma divertida noite no teatro. Por isso, se gostam de rir, de ver bons actores em palco e se o vosso inglês não está enferrujado, não percam esta nova produção dos Lisbon Players. “Splastick” no seu melhor!

Classificação: 9 (de 1 a 10) / Fotos de Domingas Sottomayor



segunda-feira, 15 de junho de 2015

LISBON PLAYERS JUNE 2015: AND THEN THERE WERE NONE de Agatha Christie

Dez estranhos são convidados para ir passar um fim-de-semana numa ilha, onde descobrem que o seu anfitrião, que ninguém conhece, tem em mente um jogo mortal. Um a um eles vão sendo assassinados e chegam à conclusão que o assassino tem que ser um deles.

AND THEN THERE WERE NONE, também conhecido por TEN LITTLE INDIANS (é o título da versão cinematográfica de 1965), é uma das mais conhecidas obras da grande Agatha Christie. Escrita em 1939, foi adaptada para o teatro uns anos depois e depressa chegou ao cinema. Que me lembre, só vi a versão dos anos 60, que por cá se chamou 10 CONVITES PARA A MORTE. A ideia de a poder ver em palco agradou-me e assim não podia deixar de ver esta nova produção do The Lisbon Players. Ainda por cima adorei o cartaz, que adapta a capa de uma das muitas edições desta novela.

Infelizmente, é com muita pena que tenho que vos dizer que fiquei muito decepcionado. A encenação de Keith Esher Davis é demasiado convencional e tem falta de energia. A acção é muito linear, sem picos emocionais e nem mesmo com os crimes a coisa aquece. Por outro lado senti que é tudo muito levado a sério. Acho que um pouco mais de humor e tensão podiam fazer toda a diferença. Também não percebi qual a necessidade de ser em 3 actos, mas acredito que deve haver uma razão para assim ser.

O elenco é equilibrado, mas as suas interpretações são um bocado “monocórdicas” e ninguém se destaca. Quando a identidade do assassino é revelada, este/a (não vou revelar nada) entra em cena de forma exagerada e a sua interpretação é um bocado “overacting”. Já tinha visto alguns dos actores noutras peças do Lisbon Players e sei que são capazes de melhor.

O facto de ter tido alguma dificuldade com algumas das pronúncias também não ajudou, mas acima de tudo achei que têm material para tornarem esta peça mais interessante e mais empolgante. Isto é um mistério da Agatha Christie, seria bom sentir-se a tensão e o medo dos personagens. Não é uma má peça, mas ia à espera de melhor, muito melhor. Mas o público presente pareceu gostar bem mais do que eu, por isso se calhar o problema é apenas meu. Classificação: 3 (de 1 a 10)

sábado, 11 de abril de 2015

A NOITE DO CHORO PEQUENO de João Ascenso

Numa estação de camionetas, duas estranhas passam a noite num banco enquanto esperam pelas primeiras carreiras da manhã. Uma é uma mulher do povo, a outra uma ricalhaça; ambas encontram-se ali por razões pessoais e, sem se conhecerem de lado nenhum, acabam por desabafar uma com a outra. Ambas são assombradas pelos seus passados e enfrentam um futuro imprevisível.

O autor e encenador desta peça é João Ascenso, um excelente dramaturgo que estou certo que um dia vai ter o reconhecimento que merece. Este talentoso jovem, cujo trabalho tive o prazer de descobrir no Teatro Rápido, tem o dom de conseguir criar situações e personagens reais com uma linguagem simples, despretensiosa, pontuada com um apurado sentido de humor e esta sua nova peça não é excepção. É quase impossível não sentir empatia com as personagens e não nos deixarmos levar pelas suas emoções; tão depressa estamos a rir, como a seguir estamos com um nó na garganta.

Enquanto encenador, Ascenso sabe que o que importa são as personagens e a história, tudo o resto é praticamente supérfluo. Nesta peça, o cenário cinge-se a um mero banco onde as personagens se sentam; o resto da estação existe apenas no mundo da imaginação e ele consegue fazer-nos acreditar que está lá tudo. Como se diz em inglês “less is more” e neste caso serve na perfeição a história.

Claro que para uma peça deste género funcionar é necessário a presença de boas actrizes e também aí Ascenso não falhou. No papel da mulher do povo, Sofia Nicholson é fantástica, dando-nos uma interpretação expressiva, emocional e cheia de graça. No papel da ricalhaça, Alexandra Sargento pode ser por vezes um pouco overacting, mas é convincente como a “benzoca” distante que acaba por se tornar uma mulher mais humana e é excelente nessa transformação. Percebe-se que ambas se entregaram sem reservas a este projecto e juntas conquistam o nosso coração. No final foram aplaudidas em pé por uma plateia rendida ao seu talento e às palavras simples e brilhantes de João Ascenso.

Um grande momento de teatro a não perder! Classificação: 9 (de 1 a 10) / cartaz de Luís Covas e fotos de Pedro Sadio

sexta-feira, 13 de março de 2015

LISBON PLAYERS MARÇO 2015: THE GLASS MENAGERIE de Tennessee Williams

Uma cortina de “vidro” ocupa todo o palco, à sua frente Tom Wingfield começa a encenar uma peça que nos leva até à América dos anos 30 para nos relatar algumas das suas memórias. Enquanto memórias não têm que ser exactamente realistas, mas sim a forma como ele as recorda. Na altura vivia com a sua mãe Amanda e a sua irmã Laura, mas o seu sonho era fugir daquela casa para sempre; mas Amanda tenta prendê-lo, ao mesmo tempo que deseja desesperadamente que Tom arranje um namorado para a sua tímida irmã, que vive fechada no seu mundo de figurinhas de vidro.

O primeiro contacto que tive com esta peça de Tennessee Williams foi quando vi a adaptação cinematográfica de 1987, dirigida por Paul Newman. Sobre esse filme na altura escrevi o seguinte “Newman adapta com sensibilidade, mas também com “chateza”, e filma como se se tratasse de uma peça de teatro”. É verdade, recordo-me de ter gostado dos actores, mas de ter achado o filme chato. Assim, foi com algum receio que fui ver esta produção dos Lisbon Players. Mas não havia razões para isso.

Tal como Newman, António Carlos Andrade dirige a peça com sensibilidade e sente-se a ternura que ele nutre pelos personagens da história. Os actores movem-se com fluidez pelo literalmente brilhante cenário, onde tudo, cortinas e móveis, se assemelha a vidro, dando imediatamente uma sensação de fragilidade que nos remete para a personagem central, a doce e tímida Laura. Nas mãos competentes do director, as cenas sucedem-se com o ritmo certo, sem atropelos e sem monotonia. Pessoalmente, dispensava o uso de um ecrã em palco (uma sugestão do autor da peça), mas não me incomodou e funciona muito bem na cena do autógrafo.

Tal como em todas as peças de Tennessee Williams, as personagens são fortes, bem caracterizadas e só um excelente elenco lhes podia dar vida. Felizmente, o quarteto que as vive no palco do Lisbon Players não podia ser melhor e Andrade soube como tirar o maior partido do talento à sua disposição, numa direcção de actores sem falhas onde especialmente brilham as actrizes.

No papel de Amanda, a mãe que foi uma beleza sulista cheia de pretendentes (qual Scarlett O’Hara) Celia Williams enche o palco com se fosse um furacão. Nunca duvidamos que ela foi uma verdadeira beleza, ainda o é, e a força do seu carácter é evidente em todos os momentos. No filme de Newman, o papel era interpretado por Joanne Woodward e na altura achei-a overacting; a personagem é maior que a vida e por isso presta-se ao exagero. Mas aqui Williams consegue o balanço certo entre a mãe castradora, protectora, dominante e sonhadora. Uma senhora actriz!

Como a tímida Laura, Elizabeth Bochman consegue transmitir toda uma gama de emoções com um simples olhar. Esta jovem actriz, que já tinha tido o prazer de admirar em PYGMALION, ilumina o palco com a sua beleza interior, tocando-nos com a forma ternurenta com que trata as suas figurinhas de vidro e por momentos gostaríamos de fazer parte da sua colecção. Sem querer revelar muito sobre os acontecimentos da peça, não posso deixar de mencionar a simplicidade com que ela, numa determinada cena, passa de uma jovem frágil e sem chama, para alguém cheia de esperança e depois para alguém cuja alma foi quebrada, tudo praticamente sem palavras. Notável!

Gonçalo Cabral, como Tom, é o narrador/personagem da história. É através do seu olhar que assistimos ao que se passa. Sonhador, impaciente, desesperado, ternurento com a irmã, tudo isto Cabral consegue transmitir sem esforço, mais teatral enquanto narrador e mais realista enquanto personagem. Os seus melhores momentos são a cena com a mãe na escada de incêndio e com a irmã sentados no chão. O seu Tom é um jovem amargurado e nostálgico.

O quarto personagem da história é Jim; um colega de Tom que é convidado para ir jantar a sua casa, na expectativa, sem ele saber, de poder ser um pretendente para Laura. E, no papel, Tomás Anderson convence como o perfeito “gentleman caller”. Um pouco convencido, mas simpático, com o sorriso certo, atencioso e sincero. Na sua longa cena com Laura, ele dá-nos um monólogo cheio de vida e esperança e nem por um momento duvidamos das suas palavras.

Bem, entusiasmei-me e já escrevi mais do que é costume. Mas há peças e filmes assim, sobre os quais nos apetece escrever mais. Só gostava que a minha escrita fosse mais erudita, para poder fazer justiça a esta produção e a todos os que trabalharam nela. A melhor coisa que posso dizer é para não a perderem! Só uma chamada de atenção, a peça é em inglês e para tirar bom proveito da mesma um bom conhecimento da língua é imprescindível. Classificação: 8 (de 1 a 10)