sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O FANTASMA DOS CANTERVILLE de Oscar Wilde

Uma família americana compra a velha mansão dos Canterville em Inglaterra, onde durante séculos o fantasma de Sir Simon tem assombrado e assustado os seus proprietários anteriores. Ao princípio, os americanos não acreditam em fantasmas, mas contra factos não há argumentos e, sem medo, tornam-se um pesadelo para o fantasma.

Publicado em 1887, este conto de Oscar Wilde já foi alvo de várias adaptações teatrais e cinematográficas (lembro-me de ver uma na televisão quando era puto, onde David Niven fazia de fantasma). Desta vez temos uma versão portuguesa com um espírito muito britânico.

O cenário é austero, fazendo lembrar os filmes de terror gótico de antigamente, havendo alturas em que sentimos que estamos a assistir a uma sessão espírita. A iluminação é brilhante e os efeitos práticos e eficazes na sua simplicidade. Apesar do humor, quando tudo fica às escuras, não deixamos de sentir um pequeno calafrio.

O elenco está espiritualmente inspirado e encarna a teatralidade da peça. Joana Campos narra os acontecimentos assustadores com seriedade e António Mortágua marca presença como o fantasma assombrado. André Pardal encarna na perfeição o pai de família americano e Sandra Faleiro diverte-se como a sua esposa; como os seus filhos, João Bravo dá vida aos traquinas gémeos, João Pedro Dantas é o prático filho mais velho e Mafalda Jara é a doce filha, um ser de luz na escuridão da mansão.

Com uma encenação lúgubre, sóbria, elegante e divertida de Bruno Bravo, pontuada com algumas velhas canções, aconselho uma visita à mansão dos Canterville e ao seu fantasma assombrado.

Elenco: António Mortágua, André Pardal, Joana Campos, João Bravo, João Pedro Dantas, Mafalda Jara, Sandra Faleiro

Equipa Criativa: Adaptação e Encenação: Bruno Bravo • Texto: Oscar Wilde • Cenografia, Figurinos e Adereços: Stephane Alberto • Desenho de Luz: António Villar • Assistente de cenografia: Margarida Silva • Construção de cenário: David Paredes e Nuno Tomaz •  Assistente de figurinos: Joana Veloso • Costura: Inês Correia e Inês Batista • Direção de Produção: Telma Grova • Assistente de produção: Inês Felix • Assistência de Encenação e Direção de Cena: Margarida Lopes Batista • Assistência técnica: Nell Heuer • Operação Técnica: Rafael Ligeiro • Video: Tiago Nuno • Media Partner: Antena  • Produção: Primeiros Sintomas

Fotos: Sérgio Lemos 





quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

FETICHES

Num espaço seguro, dois homens convidam-nos a falar e a ouvir falar de fetiches, tudo sem tabus e não esquecendo que o que acontece naquela sala de teatro fica naquela sala. O resultado é divertido.

Com simpatia e humor, João Borges de Oliveira e Miguel Migueis explicam-nos o que são fetiches e, tendo em conta os seus estudos superiores (um no Matogrosso e o outro nos Países Baixos), ninguém porá em causa as suas palavras, os seus ensinamentos, as suas sugestões.

Como já devem ter percebido, estamos perante uma peça de teatro onde o improviso é o rei da noite. Logo quando chegamos ao teatro somos convidados a escrever, anonimamente, qual o nosso fetiche ou fetiches; mas não se assustem, não temos de os assumir em público, só se estivermos para aí virados e nos quisermos juntar à festa.

Entre muita gargalhada, posso garantir que fiquei a saber de coisas que nunca me passariam pela cabeça que pudessem ser fetiches, mas na verdade ele há gostos para tudo e o importante é sermos felizes. Os dois actores acompanham-nos nessa viagem, com olhares de cumplicidade, por vezes perdidos de riso (tal como nós), outras surpreendidos, mas no final saímos bem-dispostos do teatro e, nos dias de hoje, isso sabe muito bem.

Aceitem o convite, libertem-se e venham falar ou ouvir falar de fetiches!

Elenco: João Borges de Oliveira, Miguel Migueis

Equipa Criativa:  Desenho de Luz e Op. Técnica: Enzo Ballaré • Fotografia: Patrícia Blázquez • Comunicação e Imagem: Ana Veiga • Produção: Boutique da Cultura




sábado, 27 de dezembro de 2025

UM QUINTETO DE MORTE de Graham Linehan

Em 1956 estreia por cá O QUINTETO ERA DE CORDAS (The Ladykillers), cujo argumento original de autoria de William Rose foi nomeado para o Óscar; à frente do elenco, o grande Alex Guiness (que viria a ficar mais conhecido por ser o Ben Obi-Wan Kenobi do STAR WARS). Em 2004, os irmãos Coen dirigem uma nova versão deste filme com Tom Hanks no papel do Professor Marcus. Em 2011, o filme foi adaptado aos palcos ingleses e é essa versão que chega agora até nós.

A história é simples. Um grupo de criminosos, disfarçados de um quinteto de músicos, alugam um quarto na casa de uma velhota solitária que, não desconfiando dos seus nefastos negócios, acaba por interferir sem querer com os mesmos.

O que temos aqui é uma comédia britânica à moda antiga, com muito humor negro e bons momentos de comédia física. Frederico Corado dirige com graça, aproveitando ao máximo tudo aquilo que o cenário (também de sua autoria) lhe permite. Os acontecimentos fluem sem atropelos no palco, os personagens vão-se revelando de forma divertida e o resultado é uma agradável noite (ou tarde) de teatro.

Quanto ao elenco, todos estão à altura do que lhes é pedido, fazendo-o com talento e bom sentido cómico. No papel da velhota, carinhosamente chamada de “Pantufinha” por um dos “maus”, Florbela Queiroz é deliciosa e continua cheia de energia. No papel do Professor Marcus, o cabecilha do quinteto, José Raposo é um verdadeiro “falinhas mansas”. Quanto aos restantes, o meu preferido é o divertido Ricardo Raposo como o “bronco” K.O.

Se estão à procura de cerca de duas horas de bom entretenimento, daquele que nos faz rir sem termos que pensar muito, esta comédia é indicada para vocês.

Elenco: Florbela Queiroz, José Raposo, João Maria Pinto, Heitor Lourenço, Miguel Raposo, Ricardo Raposo, António Machado, Fátima Severino, Lourdes Lima, Teresa Sanchez, Natália Guimarães 

Equipa Criativa: Encenação: Frederico Corado • Texto Original: Graham Linehan, inspirado no argumento de William Rose • Tradução: Frederico Corado • Cenografia e Figurinos: Frederico Corado • Assistência de Encenação: Bárbara Barradas • Desenho de Luz: Paulo Sabino • Video, Fotografia e Design: Renato Arroyo • Making Of: Beatriz Cachulo: • Produção: UAU

Fotos: Renato Arroyo


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O ARQUITECTO E O IMPERADOR DA ASSÍRIA de Fernando Arrabal

Numa ilha deserta, algures neste planeta, vive sozinho o Arquitecto. Um dia, um avião despenha-se na ilha e o único sobrevivente do acidente é o suposto Imperador da Assíria.

Não conhecia esta peça, escrita em 1967 por Fernando Arrabal, mas tendo em conta a linguagem utilizada, julgo que foi actualizada para os nossos tempos, mantendo o espírito do original. Na encenação “despida” de João Mota, onde a areia é um complemento aos personagens, descobrimos dois homens, um ingénuo e inocente, o outro um conhecedor dos prazeres e horrores da civilização. Entre os dois, iniciam-se uma série de jogos, por vezes um pouco surrealistas, que de certa forma são um olhar crítico ao mundo actual.

Para uma peça destas funcionar, é preciso dois actores que se entreguem totalmente aos seus papéis e que entre os quais dois exista uma química palpável. Felizmente, Francisco Pereira de Almeida e Rogério Vale foram a escolha certa. O primeiro dá ao Arquitecto um ar de criança grande, que acredita na magia e para quem tudo é um jogo. O segundo dá-nos um Imperador com manias de grandeza e ditatoriais, mas também de uma grande fragilidade. Por razões óbvias, o seu personagem é muito mais rico e interessante. Rogério Vale comanda o palco, ou devo dizer o areal? Mas entre os dois actores existe uma cumplicidade, diria por vezes homoerótica, que é o verdadeiro coração da peça.

Acreditem que este não é o meu tipo de peça e sei que não é para todo o público, mas foi uma agradável surpresa e foi com agrado que aplaudi os actores de pé. Infelizmente, a sua carreira termina já dia 14 deste mês, pelo que recomendo que se apressem a comprar bilhetes, pois vale mesma a pena!

Elenco: Francisco Pereira de Almeida, Rogério Vale

Equipa Criativa: Encenação: João Mota • Texto: Fernando Arrabal • Tradução: Luís Vasco •  Assistentes de Encenação: Miguel Sermão, Madalena Nestório (estagiária Escola Secundária D. Pedro V) • Desenho de Luz: Paulo Graça • Ambiente Sonoro e Sonoplastia: Hugo Franco • Cenografia: Renato Godinho, João Mota • Teasers: Jorge Albuquerque • Operador de Luz/Som: Hugo Franco, Bruno Simões, Afonso Silva • Técnicos de Montagem: Renato Godinho, Assunção Dias • Gabinete de Produção: Rosário Silva, Carlos Bernardo, Catarina Oliveira • Assistência Geral: Assunção Dias, Selma Meira, Julieta Lucas • Estagiário Técnica: Bruno Simões

Fotos: Pedro Soares, Manuel de Almeida (Lusa)




quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

ESTAR EM CASA de Ricardo Neves-Neves / DEFINITIVAMENTE AS BAHAMAS de Martin Crimp

Presumo que, presentemente, Ricardo Neves-Neves é o encenador mais em destaque em Lisboa, não com uma, mas sim com três peças em exibição: o hilariante musical MÃES e estas duas estreadas no final de Novembro no Teatro Variedades.

Estas duas peças, apesar de serem ambas comédias, não podiam ser mais diferentes. Em ESTAR EM CASA, Neves-Neves adapta de forma brilhante a obra de Adília Lopes ao palco. Já em DEFINITIVAMENTE AS BAHAMAS, encena com base num texto original do dramaturgo inglês Martin Crimp, com tradução de Isabel Lopes.

Vamos começar pelas BAHAMAS, onde um casal já de idade avançada partilha connosco histórias da sua vida e da dos outros, acabando por se revelarem xenófobos. Adoro o trabalho de Neves-Neves, mas tenho que confessar que não gostei desta peça. Começa bem, com um cenário que promete uma comédia engraçada, mas perto do meio, comecei a perder o interesse pelos personagens e desliguei-me. Ainda assim, apreciei a sempre talentosa Custódia Gallego. A verdade é que esperava uma comédia divertida e meio-maluca, e saí decepcionado.

ESTAR EM CASA já é outra história. Simplesmente adorei esta peça! Não conhecia a obra de Adília Lopes, por isso não sei dizer se Neves-Neves faz uma boa adaptação da mesma, mas o resultado é brilhante. Na encenação imaginativa dele e nas mãos seguras de Sílvia Filipe, é um momento inesquecível de teatro, daqueles que nos enche o coração.

Aqui, Neves-Neves está naquilo que eu acho ser o seu território. Uma loucura saudável transborda do palco, envolvendo-nos de forma agradável e criando uma grande empatia entre nós e a actriz. A ideia da animação é genial e pontua a peça de forma simples e cheia de graça. Eu que nem sou apreciador de poesia, deixei-me levar pelo texto e pela forma como flui sem sabermos para onde nos vai levar a seguir. Fantástico!

Voltando a Sílvia Filipe, que já tinha tido o prazer de ver partilhar o palco em A FAMÍLIA ADDAMS e QUERIDO EVAN HANSEN, aqui comanda o palco só por si, numa interpretação excepcional, digna de todos os prémios que possa haver. A versatilidade desta actriz é espantosa, conseguindo fazer-nos rir, comover, enquanto canta sem esforço. Para ser honesto, ela não está propriamente sozinha em palco, de vez em quando é visitada por uns “personagens” deliciosos e, algures por detrás da cortina, Simão Bárcia dá-lhe o devido apoio musical. 

Por mim, teria ficado toda a noite nesta casa construída por Neves-Neves e na companhia memorável de Silvia Filipe e seus “companheiros”. ESTAR EM CASA assim, vale mesmo a pena!















DEFINITIVAMENTE AS BAHAMAS

Elenco: Custódia Gallego, Marques D’Arede e Cristina Gayoso Rey

Texto Original: Martin Crimp • Tradução: Isabel Lopes • Encenação: Ricardo Neves-Neves • Desenho de luz: Cristina Piedade • Art design: José Cruz • Fotografia: António Ignês • Vídeo promocional: Eduardo Breda • Caracterização e cabelos: Marco Santos • Coordenação técnica: Cristina Piedade • Produção e direção de cena: Teatro do Eléctrico - Sílvia Moura • Produção: Culturproject - Nuno Pratas • Difusão: José Leite • Produção: Culturproject, Teatro do Eléctrico e Cineteatro Louletano

Fotos: Estelle Valente














ESTAR EM CASA

Elenco: Sílvia Filipe

Equipa Criativa: Textos Originais:  Adília Lopes • Dramaturgia e Encenação:  Ricardo Neves-Neves • Música: Simão Bárcia • Canções:  Maia Balduz e Simão Bárcia • Desenho de Luz e Coordenação Técnica:  Cristina Piedade • Cenografia: Eric da Costa • Artes finais de cenografia: Rita Vieira •Construção de cenário e adereços: José Pedro Sousa, Paula Hespanha e Rita Vieira • Ilustração e Vídeo: Inês Silva • Video Mapping: Eduardo Cunha • Figurinos: Rafaela Mapril • Cabelos:  Carlos Feio • Desenho de Som e Sonoplastia: Sérgio Delgado • Fotografia de Cartaz: Filipe Ferreira • Design Gráfico:  Renato Arroyo • Design Gráfico Teatro do Eléctrico:  José Cruz •  Vídeo Promocional: Eduardo Breda • Assistência de Encenação: José Leite • Segundo Assistente:  Tiago Estremores • Produção e Direção de Cena Teatro do Eléctrico:  Sílvia Moura • Produção Culturproject:  Nuno Pratas • Coprodução Teatro do Eléctrico, Cineteatro Louletano e Culturproject

Fotos: Estelle Valente e Humberto Mouco


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

ODE AOS MEUS HOMENS ou O MAIOR SILÊNCIO DO MUNDO de Rafael Diaz Costa

Num palco quase vazio, um actor entrega-se de alma e coração ao seu personagem, despido de moralismos, preconceitos, medos. A sua interpretação transborda de todos os seus poros, num tour de force que não deixa ninguém indiferente. 

O actor em questão é Rafael Diaz Costa, um dos jovens talentos que tive o prazer de descobrir no Teatro Rápido, onde nos deu um inesquecível PROFESSOR ROBERTO. Tal como nessa curta peça, o texto também é da sua autoria. A história, semiautobiográfica, fala-nos de um homem gay, das suas paixões, das suas perdas, dos seus sonhos. Duvido que haja algum homem gay que não se reveja em uma ou mais situações, o que faz deste retrato íntimo uma experiência emocional muito próxima de nós. 

Sempre disse que “menos é mais”, ou como com pouco se faz muito, e essa é a abordagem inspirada da encenadora Íris Macedo. Com meia-dúzia de objectos, uma eficaz iluminação de Filipe Pacheco, usando a sua e a nossa imaginação, ela consegue transformar o palco numa discoteca, num quarto e outros locais. Consegue evitar as lamechices, bem como a militância LGBT+, a que a história se podia prestar, e dá-nos um retrato honesto e sensível de um homem que só pretende amar e ser amado... não é que todos queremos?

Esta produção do Teatro Bravo merece a vossa atenção e aplauso. Por isso, façam o favor a vós próprios de irem ver esta ODE AOS MEUS HOMENS, onde Rafael Diaz Costa vai conquistar o vosso coração. Não se vão arrepender!

Elenco: Rafael Diaz Costa

Equipa Criativa: Encenação: Íris Macedo • Texto: Rafael Diaz Costa • Direção de Corpo: Margaria Borges • Desenho de Luz e Som: Filipe Pacheco • Voz Off: Gonçalo Lino Cabral • Produção: Teatro Bravo • Apoio à Produção: Teatro Papa-Léguas

Fotos: Filipe Ferreira





terça-feira, 11 de novembro de 2025

A FOZ DO MEKONG de Fernando Heitor

Um solitário, anti-social e revoltado professor de geografia, dá explicações sobre essa matéria no seu apartamento, não sendo fácil ser aceite como seu aluno. Um dia, um jovem cheio de vida e muito bem-disposto bate-lhe à porta na esperança de que ele o aceite como aluno. Durante a entrevista, entre os dois cria-se uma complicada relação de ódio e amizade.

O autor e encenador Fernando Heitor, de quem tive o prazer de ver MÁRIO A HISTÓRIA DE UM BAILARINO DO ESTADO NOVO e SALÃO LISBOA – O DIÁRIO DE UM ALFACINHA, é um mestre em economia de meios. Com ele, menos é sempre melhor, e esta nova peça não foge à regra. O que importa a Heitor é o texto e os seus personagens, e quando ambos são bons e interessantes, como é caso, o cenário é reduzido ao essencial, estando ali apenas para servir os personagens, que se revelam perante o nosso olhar, sem distrações ou grande jogos de luz, mas com empatia e humor. Outra coisa em que Heitor é excelente é na direção de actores, o que não falha aqui.

Como o professor, Flávio Gil demonstra mais uma vez o fantástico actor que é, passando da raiva, à loucura, ao desespero, à alegria, com uma facilidade de fazer inveja a muita gente. A seu lado, Tomás Andrade é uma revelação como o provocador, irreverente e por vezes irritante aluno. A química entre os dois é essencial à peça e essa existe deste o primeiro momento em que ambos se encontram em palco.

Costuma-se dizer que “em equipa vencedora não se mexe” e esta terceira colaboração entre Fernando Heitor e Flávio Gil (o actor das outras duas peças que mencionei) prova isso. Espero que juntos nos voltem a dar mais peças com personagens reais como nós, cheias de humanidade, onde as emoções fervem e de onde saímos de “barriga cheia”. A não perder!

Infelizmente, a peça vai estar muito pouco tempo em exbição na Boutique da Cultura, não sabendo se depois terá futuro noutro espaço. A verdade é que, presentemente, em Lisboa, está a haver falta de salas onde os espectáculos consigam permanecer pouco mais, se tiverem sorte, que duas/três semanas. Um problema grave para quem faz teatro e mau para o público que assim perde a oportunidade de ver as peças; muitas vezes, quando se começa a falar das peças, estas já não estão em exibição. Espero, muito sinceramente, que esta FOZ DO MEKONG encontre outro palco onde possa conquistar mais público.

Elenco: Flávio Gil, Tomás Andrade 

Equipa Criativa: Encenação: Fernando Heitor • Texto: Fernando Heitor • Música: João Paulo Soares • Produção Executiva: André Camilo • Produção: Camarote Produções

Fotos: Fernando Santos



domingo, 2 de novembro de 2025

SCROOOGE de Charles Dickens

O famoso conto de Natal de Charles Dickens (A CHRISTMAS CAROL) já foi alvo de diversas adaptações, para o cinema, teatro e televisão. Desta vez chega aos nossos palcos pela mão da companhia Embuscada, numa pequena, mas simpática produção.

A história do rabugento Scrooge e o seu ódio ao Natal é, praticamente, conhecida de todos. Na noite de Natal ele recebe quatro estranhas visitas, o fantasma do seu antigo sócio, o duende do passado, o do presente e o do futuro. Estes vão acabar por o fazer mudar de atitude perante a vida e o Natal.

Sim, disse duendes e não fantasmas, não é engano. Esta produção está feita a pensar no público infantil e duendes são menos assustadores que fantasmas. Mas o espírito do clássico de Dickens está lá todo e a sua mensagem é tão ou mais relevante hoje do que à data da sua publicação em 1843. Não sei se as muitas crianças presentes percebem a mensagem, mas assistiam a tudo com muita atenção, sempre prontas a intervir quando convidadas a fazê-lo (e às vezes sem serem convidadas), criando um ambiente muito engraçado.

Tiago de Almeida optou por uma encenação em que “menos é melhor”, apostando no elenco, na simplicidade do cenário e em conseguir criar imagens que não existem fisicamente, mas apenas no mundo da imaginação. Como é meu hábito com esta história, fico sempre comovido e as lágrimas insistem em sair, mas são lágrimas de felicidade. Acredito que a todos nós, faria muito bem receber a visita destes duendes.

João Marques, com seu sobrolho carregado e grande altura, é um Scroooge intimidante, sem humor, mas o seu olhar revela o turbilhão de emoções que os duendes lhe provocam e acaba por nos conquistar. Os outros três actores, Marta Lopes Correia, Rafael Rua e Silvia Mirpuri, desdobram-se naturalmente em diversos papéis, criando empatia com o público e conquistando a miudagem presente. Os quatro actores interpretam com boas vozes as alegres músicas da autoria de António Andrade Santos; neste campo Mirpuri foi uma revelação para mim. Só tive pena que o personagem do Scroooge não cantasse mais, mas quando o faz, fá-lo muito bem. 

Passei uma tarde muito agradável na companhia deste elenco e gostei de revisitar o clássico de Dickens. Por isso, façam como eu, não sejam uns “tretas” e vão visitar este SCROOOGE e seus companheiros!

Elenco: João Marques, Marta Lopes Correia, Rafael Rua e Silvia Mirpuri

Equipa Criativa: Criação, Encenação e Espaço Cénico: Tiago de Almeida • Músicas: António Andrade Santos • Figurinos: Milá Bastos e Embuscada • Desenho de Luz: Tiago de Almeida • Operação Técnica: Bruno Águas, Catarina Marques Ramos e Tiago de Almeida • Cenografia: Embuscada • Direcção de Produção: Catarina Marques Ramos • Produção: Embuscada • Promotor: Boutique da Cultura

Fotos: Mafalda Lopes





terça-feira, 21 de outubro de 2025

A VELHA SENHORA de Márcia Cardoso

Mesmo a tempo do Halloween, uma família de vampiros chega ao Cine-Teatro Turim em Benfica. Eles são um quarteto de sugadores de sangue, saudosistas dos tempos anteriores à Revolução de Abril e completamente contra a liberdade... até o sangue perdeu a qualidade. A fim de recuperarem o poder perdido, decidem invocar a Velha Senhora e sofrer as possíveis consequências de o fazerem.

Pois é, esta comédia original escrita e encenada por Márcia Cardoso, faz-nos rir de coisas sérias e, felizmente, não tem receio de ser politicamente incorrecta. O resultado é uma noite de pura diversão, onde as gargalhadas são muitas e o gozado lado “queer” dá-lhe um toque muito especial. Cardoso dirige com mão segura, tirando o melhor proveito do elenco ao seu dispor e aproveitando da melhor forma o palco.

O elenco diverte-se imenso com os seus personagens e são todos irresistíveis. Como o líder dos vampiros, Francisco Beatriz é o sexy Salazar (o nome diz-vos qualquer coisa, certo?) e a seu lado Marta Gil é Marcela, que deseja ser sua esposa. Ricardo Barbosa, é Higino, um vampiro gay com uma paixoneta por Salazar e Diana Vaz é Salette, a nova vampira, que até pode ser comunista... cruzes, credo! Por fim, temos a Velha Senhora, de nome Dita Duras, encarnada em puro delírio drag por um António Ignês em estado de graça. Confesso, que com tantos pequenos e engraçados pormenores a acontecerem em palco, por vezes não sabia para quem olhar. Se calhar preciso de lá voltar, mas tenho receio de ser mordido...

Temo que esta peça passe despercebida, e seria uma pena que assim fosse. Por isso, corram ao Turim! Aproveitem para rir com vontade, aprenderem “coisas novas (chuca tântrica?), deliciarem-se com o erotismo contido... e quem é que nunca quis ser um vampiro? Eu adorava ser um! Venham daí, não se levem a sério e não percam esta peça!

A peça está em cena até 7 de Dezembro, de quinta a sábado às 21.30h e domingos às 17:00h.

Elenco: António Ignês, Diana Vaz, Marta Gil, Francisco Beatriz, Ricardo Barbosa e João Tempera (Voz)

Equipa Criativa: Encenação: Márcia Cardoso • Texto:  Márcia Cardoso • Assistente de Encenação: Joana Almeida • Desenho de Luz / Operação de Luz: Paulo Rodrigues e Rúben Brandão • Sonoplastia: António Beatriz • Figurinos: João Telmo • Guarda-Roupa: Besta de Estilo • Produção: Meia Palavra Basta – Associação Cultural • Projecto Apoiado pela Fundação GDA e Junta de Freguesia de Benfica

Fotos: Alípio Padilha



O SENHOR PAUL de Tankred Dorst

O senhor Paul vive com a sua irmã num edifício decadente, de onde ele nunca sai. Passa a vida deitado num sofá, em puro estado de letargia. Um dia, aparece o jovem herdeiro da antiga senhoria, com a intenção de o convencer a sair dali, recuperar o edifício e montar um negócio rentável. Mas as coisas não vão correr como o jovem espera.

Apesar de ter sido escrita em 1994 por Tankred Dorst, a peça é tão actual que podia ter sido escrita hoje. Na encenação sóbria, mas repleta de humor, de Álvaro Correia, depressa somos manipulados a tomar o lado do Sr. Paul e é com muita curiosidade que seguimos o que vai acontecendo. Adorei o estado caótico em que o palco vai ficando.

O elenco é todo muito bom, com destaque para Miguel Loureiro como o inteligente, manipulador e letárgico Sr. Paul e José Pimentão como o desesperado herdeiro. Mas a nossa atenção, pelo menos a minha, foi para Lia Carvalho como a namorada do herdeiro. Uma verdadeira lufada de ar fresco e um furacão “verde” de energia; é difícil desviar o olhar dela sempre que está em palco. Mas todos merecem o nosso aplauso e recomendo uma visita a este Sr. Paul. Não se vão arrepender.

Elenco: Carlos Malvarez, Íris Cañamero, José Pimentão, Lia Carvalho, Maria José Paschoal e Miguel Loureiro

Equipa Criativa: Encenação: Álvaro Correia • Texto: Tankred Dorst • Tradução: Vera San Payo de Lemos • Cenografia: André Guedes • Figurinos: Marisa Fernandes • Desenho de Luz: Manuel Abrantes • Música: Vitória • Video: • Ponto: • Produção: T

Fotos: Filipe Figueiredo